terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Eu nunca fui aluno da dona Ester

Pois é. A grande peça que o destino me pregou talvez seja essa. Eu nunca fui aluno da dona Ester. Dona Ester nasceu Maria Ester de Souza. Filha de Lourival de Souza e Maria Gomes. A quarta de 10 irmãos. Formada em magistério e professora de português do Ensino Fundamental. Deu aula por 32 (ou 33) anos ininterruptos na Escola Estadual “Interventor Alcides Lins”. Brava. Exigente. Séria. Ensinou a centenas de curvelanos as dores e as delícias da língua portuguesa. Casada. Mãe de dois filhos. Um deles, por acaso, eu. Desde que pus o pé na escolinha, aos dois anos de idade, sabia que seria quase inevitável ser aluno de dona Ester. Curvelo é uma cidade pequena, não tinha muito pra onde fugir. Fora o fato que dona Ester é defensora feroz da qualidade do ensino público. Não deu outra. Na primeira série, fui parar bem no colégio em que ela já era quase uma lenda. O destino ia se cumprir em poucos anos, não tinha jeito. E os meus amigos não deixavam por menos. Colocavam o terror sempre que uma oportunidade surgia. “Você é filho da dona Ester? Ih, já parou pra pensar que vai ser aluno dela? Sabia que ela é muito brava? Você tá perdido!” Uma tremenda covardia fazer um menino de sete anos tomar pavor da própria mãe. Primeira série, segunda série, terceira, quarta... O Ensino Fundamental estava batendo na porta e a profecia estava pronta pra ser lavrada. Foi quando eu, aos 11 anos de idade, tomei as rédeas do meu destino. Passei na prova de seleção de uma escola particular: o Colégio Padre Curvelo. Saí completamente da rota de colisão com dona Ester. E o destino, como presente, me entregou Júlia como nova professora de português. Julia nasceu Maria Júlia Miranda. Na época, professora de português no Alcides Lins e Padre Curvelo. Uma irmã de vida e profissão de dona Ester. Mãe de Amanda, Carla, Camila e Gustavo, o primeiro melhor amigo que tive na vida. Praticamente minha segunda mãe. Júlia me deu aula de português e redação da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio (com exceção apenas do 1º ano). Mamãe deve ter ficado feliz, visto que o que eu fizesse de errado na sala de aula, ela saberia quase em tempo real. A base do meu português, portanto, se deve muito ao carinho de Júlia. Nas férias escolares, eu ia em sua casa e buscava uns 10 livros infanto-juvenis para me divertir nas horas folgas. Ela tinha todas as novidades possíveis! Todos os lançamentos! A casa da Júlia era como um parque de diversões pra mim. Júlia acompanhou meus primeiros textos, minhas primeiras dissertações, minhas primeiras interpretações de texto. Eu ganhei minha primeira gramática (só minha, porque mamãe tinha umas duzentas) por causa dela. Eu tenho muito da Júlia em mim. Acabou o terceiro ano. Formatura, choradeiras e... futuro! “O que você quer para o futuro, Rafael?” Depois de uma leve inclinação para a Biologia e uma tentativa frustrada na Publicidade, resolvi escrever. E aqui paira outra lenda: a de que não haveria outro caminho pra mim, sendo filho de uma professora de português e gostando tanto de ler e escrever. Vai saber... Eu quero mesmo é ser jornalista! A faculdade foi um choque. Porque você não tem tanto tempo para desenvolver laços afetivos com todos os professores. A rotatividade é intensa! Cinco mestres novos a cada seis meses. Um absurdo. Não haveria outra Júlia para me mimar e muito menos pra contar a dona Ester em tempo real meus deslizes na sala de aula. Estava sozinho e desamparado, agora. Saí do quentinho interior mineiro para a vida. Muitas vezes dura, outras vezes cruel, de vez em quando doce. Vida. Dos mais de trinta professores que tive na faculdade de Jornalismo, por muita sorte, levarei alguns eternamente comigo. Eles cumpriram sua missão de forma fantástica, substituíram a Júlia (e, secretamente, dona Ester) de forma excepcional. Me bateram quando tinham que bater, me elogiaram quando tinham que elogiar, me deram 77 em 100 quando tinham que dar (pois é, minha primeira nota em português abaixo de 80% foi na faculdade). Me ensinaram. Abel, o ursinho carinhoso travestido de malvado. Ana Rosa, que misturou língua portuguesa e charme na minha cabeça. Leo, um modelo do que pretendo ser um dia (escritor). Fabrício Marques (ou Brandon Flowers), o cara que me deu um jornal raro de presente ao fim da sua matéria. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Edmundo, dono da melhor interpretação de um texto do Nelson Rodrigues que presenciarei na vida. Wanir Campelo, responsável por minha completa desconstrução e responsável por eu decidir que o Jornalismo seria minha profissão. Ângela Moura, a doce voz e doce alma do rádio. Gisa Campos, a destruidora de timidez frente às câmeras. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Murilo, o risonho jornalista científico. JJ, o espírito vivo da paixão de ser jornalista. Lorena Tárcia (ou Clarice Falcão), a pessoa que mais faz coisas ao mesmo tempo que já vi na vida. Multimídia de corpo, alma e coração. Fernanda Agostinho, minha paixãozinha da faculdade e escritora de lindos e-mails. Érika Savernini, a paciência em pessoa e dona de um pedacinho do meu coração. Maurício Guilherme, meu mestre. Meu amigo, meu irmão. Compartilhou de minha alma nos últimos seis meses de faculdade, meu orientador de monografia. Me deu a mão até a porta de saída, me entregou o diploma na colação. E me ensinou a usar a vírgula. Tantos mestres, tantas lições, tanta entrega... E eu não fui aluno da dona Ester. O que eu sempre ouvi é que esse destino nunca se cumpriria. Eu jamais sentaria numa cadeira da sala de dona Ester. Porque ela não queria. Ela não ia permitir. Deve ser muito duro pra uma mãe ter o filho como aluno. E na hora de corrigir as provas? E se eu tirasse total? Ela poderia me elogiar em sala de aula? Ela seria capaz de me colocar pra fora da sala de aula? Ela seria capaz de me ver chorando pela menina que não me deu bola sem sentir nada? Se é difícil ser mãe de aluno, imagine ser professora de um filho. E, assim, eu não fui aluno de dona Ester. Ou, pelo menos, não numa sala de aula. Porque na vida... Ah, na vida... As primeiras palavras, os livros da Série Vagalume, os cadernos de caligrafia, as noites em claro preocupada com minha tensão nas provas finais, os tênis e uniformes novos, as orações pra que desse tudo certo, os puxões de orelha pelas notas medianas, os abraços nos momentos de vitória, o choro nos de alegria, a vigilância em me acompanhar pela faculdade, mesmo estando a 170km de distância. Eu fui aluno de dona Ester de uma forma tão especial que nenhum dos outros mais de cem foram. A dona Ester, a professora Ester, é minha MÃE. A todos os mestres aqui citados (e a todos aqueles de quem esqueci, mas fazem parte do que sou hoje), uma maçã do amor na mesa de cada um. E duas na mesa de dona Ester.

Sobre cansaço

Começou aos 19 anos. Tinha acabado de sair do Ensino Médio e virei concursado público na Prefeitura de Curvelo. Com o fim da presença diária de uma sala que caminhou junta por mais de seis anos (interior é assim!), passei a ampliar meu convívio social, conhecer gente que não estava naquela salinha quadrada e nem no Padre Curvelo. Passei a conhecer músicos. Meninos pouco mais novos que eu, mas que empunhavam um instrumento com muita propriedade. Até banda tinham. O Dieguinho e sua guitarra, o Felipe Aguiar e seu baixo (ele é primo do PJ do Jota Quest, então entendam que alguns dons são de família). E tinha também o Lucas Porto. Ah, o Lucas Porto! Esse reunia muitos predicados em uma só pessoa. Talvez o cara mais famoso de Curvelo na minha época. Loiro, pinta de galã e baixista. Todos eles me mostraram musicas que, até então, não faziam parte do meu universo. Tinha muito mais água nesse oceano do que Zezé Di Camargo & Luciano e Roberto Carlos. Por causa de todo esse cenário, morando no interior e com cotação de mercado quase zero com as garotas, não deu outra: “Puta merda, eu preciso ser músico!” Logo nos meus primeiros salários, fui na melhor loja de instrumentos de Curvelo e comprei meu primeiro violão. Um Kashima. 119 reais. É claro que eu sabia que não era grandes coisas, mas sempre existe aquela máxima: “Compra um instrumento barato, porque se você não gostar disso, ao menos não torrou dinheiro demais.” Mas o Kashima tinha sua graça. Era pequenino, leve igual uma pluma, cordas de nylon e o braço ia afinando, o que, nas palavras dos meus capacitados amigos, ia me facilitar a vida por demais. Cheguei em casa com o Kashima, botei o MTV Unplugged do Nirvana no som, e é aquela coisa... “Vamos começar por 'Come As You Are!'" Que dó. Eu não posso negar que realmente tinha a pretensão de conseguir tirar “Come As You Are” de primeira e sem saber nenhum acorde e nenhuma nota. Era tão simples quando se assistia ao Kurt na televisão, por que raios eu não ia conseguir? E eu tentei, tentei, tentei. Tentei pra caramba. Saldo do primeiro dia: o sonho de ter uma banda de rock praticamente morreu. Mas quando a pessoa tem 19 anos, mora no interior, é cercada de amigos famosos e – principalmente! – não conhece nada além das fronteiras de sua terra natal, não há pra onde fugir. É sentar de novo e tentar “Come As You Are” de novo. E de novo. E de novo. Dia após dia. Até conseguir. E um dia eu consegui. Minha felicidade, porém, não foi maior que minha angústia. O tempo que eu levei pra tirar “Come As You Are” sem saber nenhum acorde e nenhuma nota foi muito grande. Gigante! Meus amigos famosos tirariam umas 100 músicas nesse tempo! Eles estavam há milhares de quilômetros na minha frente. Saldo da empreitada: o sonho de ter uma banda de ro... ah, que saco. Talvez você se pergunte por que diabos eu não fui atrás dos meus amigos famosos ou de um professor de música pra me ensinar o que eu precisava. A resposta é tão idiota quanto curta: porque eu achava que não precisava disso. Minha mãe e meus professores nunca souberam, mas eu “sofro” de impaciência pra aprender. Eu não tenho paciência pra aprender. Nem saco. Eu devia ter nascido sabendo tudo que um dia, porventura, eu precisasse. Deviam existir chips colados no meu cérebro, capazes de se ativarem no instante exato que eu precisasse de sua perícia. Eu sei que ninguém é assim. Mas devíamos todos ser. E hoje, com 27 anos, continuo pensando da mesma forma. Voltando à história... Diante daquele problema de demorar quase um século e meio pra tirar “Come As You Are”, eu só tinha uma saída: botar a culpa em alguém. E é claro que a culpa caiu sobre meu pobre Kashima. Meu Kashima, coitado, era muito ruim. Cordas muito altas, braço muito frágil, o som não era aquela belezura... Bosta de Kashima! E eu cansei pela primeira vez. A solução? Voltei à loja de instrumentos e comprei um violão novo. Mas, dessa vez, não era qualquer violão. Esse era super! Folk, cordas de aço, braço mais afinado que o Kashima, cor de madeira fosca, um arraso! Se fossem tempos de Jovem Guarda, posso dizer que tinha comprado a melhor brilhantina da cidade! Meu novo violão Lauren era lindíssimo! E mais: era idêntico ao violão que o Kurt usou no MTV Unplugged. Ou seja, “Come As You Are” ia sair numa facilidade absurda, talvez até sem a minha interferência. Cheguei em casa, botei o disco do Nirvana pra tocar e tentei “Come As You Are”. Eu não disse a vocês? “Come As You Are” saiu escorregando igual baba de quiabo! Fácil, mole, como se eu tivesse nascido sabendo! Dois minutos pra comemorar e bola pra frente, ainda tinha uma banda de rock pra montar. Próxima música: “About A Girl”. Tragédia. “About A Girl” não saiu de primeira. Nem de segunda. Saiu de trigésima quarta e olhe lá. Aí o desespero tomou conta, o bicho pegou. Passei a executar uma das tarefas mais difíceis da minha vida: Me convencer de que as coisas não são tão fáceis. E de que, talvez, eu não ia ter minha banda de rock e nem fazer sucesso com as garotas. E que eu estava ficando velho e precisava de uma faculdade. Não é o que os pais dizem? Só há futuro com educação? Pois é. Me cansei pela segunda vez. Me cansei profundamente do Lauren. E simulei uma paixão bem falsa pelo jornalismo. Os anos se passaram e a paixão pela música aumentou. Li demais sobre tudo relacionado a ela. Já trabalhava no estúdio de rádio, e passei a apreciar a parte sensorial das músicas. Gravações. Efeitos. Posicionamento de microfones para se adquirir um som específico. Mono e estéreo. Dança de instrumentos pelos fones de ouvido. Beatles. Stones. Centenas de bandas. Dezenas de instrumentos diferentes além dos meus famigerados Kashima e Lauren. Tudo isso. Passei anos me inteirando da parte teórica da música. Me tornei capaz de sentar numa roda de boteco e discutir sobre tudo isso. De Belo a ZZ-Top. Mole. Mas se me aparecesse um violão nessa roda... Ah, o peito doía. Mas a esperança sempre existe, nunca deixará de existir! Aquele bichinho verde sem vergonha nunca morre. Talvez seja a única coisa imortal nessa vida. E anos depois ela veio bater nesse coração aqui de novo. “Escuta aqui, peste, vou te dar mais uma chance. Se desperdiçar, te arranco o couro!” A esperança veio travestida na figura de Igor Rockford. Igor Rockford é o guitarrista dos Baratas Tontas, banda de renome pra quem curte psychobilly. Se você não conhece, é um desavisado. Trate de conhecer! Igor Rockford trabalha comigo na Assessoria da Emater e queria trocar de guitarra. 89 anos depois de empunhar uma Squier Fender Stratocaster de cor preta, ele queria realizar um sonho antigo: comprar um modelo Les Paul. E quem nesse mundo iria ser o novo protetor da Squier Fender Stratocaster? Eu. É claro que eu paguei pela guitarra. O mundo anda difícil e todo mundo precisa de grana. Mas havia ali algo sobrenatural. Aquela guitarra participou de festivais. Viveu tempos áureos na Obra e em outros vários lugares do Brasil. Aquela Squier Fender Stratocaster foi usada pra gravar o único disco dos Baratas Tontas. Ela frequentou um estúdio. Cada defeito em seu corpo (eram pouquíssimos!) tinha uma história. Não era uma guitarra qualquer! Era uma guitarra que apreciava ser tocada e precisava disso todo dia! Eu tinha em mãos uma verdadeira lenda viva! Pergunto a vocês: “Quem nesse mundo seria capaz de me parar com essa Squier Fender Stratocaster?” Pluguei a guitarra numa caixa Marshall de dar inveja a qualquer músico. De verdade. E como era bonito o som! Quente e respirava entre uma nota e outra. A guitarra respirava! Era viva! O braço delicado era de fácil deslizamento e as cordas pareciam ser feitas de fio dental. Inacreditável como era mais fácil fazer uma pestana na Squier Fender Stratocaster! Como todo começo de namoro, éramos, eu e ela, “só love”. Até, claro, a primeira discussão. Meu universo tinha se expandido. Eu não queria mais saber de tocar “About A Girl”, Deus me livre! Eu queria tocar Led Zeppelin! Beatles! Guns! Black Keys! Que Nirvana que nada... É óbvio que eu não consegui. E é óbvio que eu botei a culpa em alguém. Todo mundo sabe que uma guitarra não é uma “guitaaaaarra” se não tiver uns pedais. Distorções! Jimi Hendrixx! Isso era guitarra! “Como eu pude pensar que conseguiria tocar Led Zeppelin sem um pedal de distorção? Burrice demais!” E pra evitar qualquer problema, fui lá e comprei dois de uma vez. Um Overdrive e um Fuzz. Duas distorções das boas! Agora ia rolar! Tinha um padre em Curvelo chamado José Augusto que sempre dizia: “Qualquer pessoa pode tocar guitarra. Guitarra é distorção e distorção esconde os defeitos primários. Quem sabe tocar de verdade pega é um violão!” Naquele momento, eu já não tinha mais orgulho próprio nenhum. Eu não sabia tocar e estava louco pra desobedecer o padre José Augusto. Eu ia esconder meus defeitos atrás daqueles dois pedais de distorção sem a menor culpa. Só que eu já não era mais um garoto de 19 anos. Eu tinha lido pra caramba! E sabe o que ler pra caramba faz com a sua vida? Você deixa de acreditar nas mentiras que criou pra si. Em outras palavras, passei anos sabotando meu maior sonho. E conhecimento é igual andar de bicicleta: você nunca mais vai esquecer. E como doeu olhar para aquela lenda viva na minha mão e ter que dizer a ela que seu novo dono não ia conseguir tocá-la como o primeiro... Eu não sabia fazer aquilo. Depois de uma conversa bem pesada, aliviei os ânimos da Squier Fender Stratocaster prometendo a ela que, um dia, eu teria um filho. E esse, sim, ia com ela rumo ao sucesso. E me cansei da Squier Fender Stratocaster. Hoje, dois anos depois, ainda queimo o restinho de esperança (lembra dela?) que ainda vive em mim. Sou dono de um baixo. Mas não é qualquer baixo! É um Squier Fender Precision Bass! Lindo! Soberano, imponente! Que os outros instrumentos não me escutem, mas é a coisa mais linda que já toquei na vida. Sunbusrt, escudo preto, braço fininho... Uma verdadeira obra de arte! E todo dia eu pego nele um pouquinho. E tento de verdade tocá-lo. Não com aquela inocência dos 19 anos e nem com a euforia dos 25. Meu Squier Fender Precision Bass não é uma lenda viva e não tem a reputação da Squier Fender Stratocaster. Se um dia ele for uma lenda, terá de ser pelas minhas próprias mãos. Porque, apesar de todo o cansaço que senti com meus antigos instrumentos, todos eles ainda estão comigo. Todos eles. O Kashima fica aqui em casa (e em breve vai para as mãos de Letícia, que decidiu “brincar” um pouquinho...). O Lauren, a Squier Fender Stratocaster e o Squier Fender Precision Bass ficam comigo lá na Emater. Vivem constantemente debaixo das minhas vistas. Porque eu os amo. Eu amo todos os meus instrumentos. Eles fazem parte de mim e sempre vão fazer. Se não em cima de um palco, como eu idealizei há oito anos, ao menos na vida. E só tem uma coisa tão grande quanto o meu amor por eles. O meu cansaço. Tem dias que sento diante dos três na rádio e passo minutos e minutos contemplando. Eu queria tanto tocá-los como um verdadeiro e feliz astro de rock... Mas como, se eles não me ajudam? Como, se eles me cansam? Eles me cansam! Mas cansaço não é falta de amor. Cansaço é cansaço. Não tem nada a ver com amor. Foi então que decidi amá-los à distância. E, acreditem, é amor pra sempre. Mesmo que mude. Mas o baixo ainda não. O Squier Fender Precision Bass ainda será uma lenda! E se der tudo errado de novo, e se ainda existir gotas de esperança, tem a bateria, o banjo, o ukulele, o violão de 12 cordas e a viola caipira. Ainda me restam cinco tentativas! Tem a cítara também, mas uma cítara é demais. Cítaras são as top models dos instrumentos. E eu nunca me imaginei ao lado de uma top model. E, se ainda eu falhar, prometo por Deus sossegar de vez. Monto um estúdio, coloco todo mundo lá dentro e pronto. Vocês devem estar pensando: “Como você é idiota! Não percebe que todos eles são iguais? São todos iguais! Todos eles tem as mesmas cordas, o mesmo corpo, o mesmo braço. Uns pequenos, outros grandes. Uns bonitos, outros nem tanto. Uns mais simples, outros mais complexos... Mas são todos iguais. Iguais!” Eu sei disso tudo. Sou um jornalista formado que leu sobre música mais que sobre sua faculdade, poxa vida. Mas eu preciso acreditar. Entende? Eu preciso acreditar. Mas jamais me lembrem disso novamente. Só de lembrar, me dá cansaço.

Olimpíadas de Flerte (Trecho 2)

Modalidade: Sentido-Perfume-Aranha Duas certezas na vida além da morte: Deus não te tira uma coisa sem dar outra em troca. E todo menino que se preze sempre quis ter superpoderes. Ela resolveu sentar na poltrona ao lado da dele naquele dia. Nunca tinha feito isso antes. Até aí tudo bem. Ele, como sempre, com seus fones entalados no ouvido e olhando imóvel para o lado de fora da janela. E respirando o perfume dela. Ele sabia precisamente onde ela estava sem precisar olhar. O olfato lhe bastava. Era um cheiro bom. A viagem começa, prossegue e chega a seus momentos finais e nada dele girar a cabeça para o lado. Seus olhos cada vez mais perdidos no nada daquela paisagem urbana. Foi quando seu olfato se mexeu. Sem fazer um movimento sequer, ele percebeu que o cheiro do perfume dela havia mudado. “Que estranho. Aí vem coisa...” E realmente veio. Inacreditável como o perfume é capaz de reagir às sensações de um corpo. Quando ela desceu do ônibus, ele voltou seus olhos para a direção de outrora e comemorou. Ele tinha a capacidade de prever a ação de uma mulher pela mudança do cheiro do seu perfume, mesmo fumando seus três cigarros de palha diários. “Quer dizer que se eu esquecer o foco e me “cegar”, eu posso prever o perigo vindo do sexo oposto? Como Perseu e a Medusa?” E nascia ali, naquele momento, um novo super-herói. Todo menino que se preze sempre quis ter superpoderes: Ok, demorou 26 anos pra aparecer um, mas... quem se importa? Ele tinha um superpoder! Deus não te tira uma coisa sem dar outra em troca: Ele percorreu todo o caminho pra casa agradecendo – de forma inédita! – por Ele tê-lo feito tão tímido.

Detona Soal

Se meu tio ler esse texto, vai falar de cara: "Puta merda, lá vem você comparar amor com jogo de novo. É por isso que nunca dá certo." Mas hoje é Dia do Orgulho Nerd e vou aproveitar a data. Esse texto não é sobre videogames. É sobre amor. Vamos supor que a vida seja assim, uma sala cheia de jogos de fliperama. E que eu seja uma dessas máquinas, colocadas em algum canto escuro dessa sala. E vamos supor que meu coração seja o jogo "Detona Ralph". Ficaríamos assim: Ralph: você O "novo" Ralph: ela Félix: eu o prédio: meu coração E só. "Mas você é o Félix?" Sim, sou. Burrice, né? Mas, sim, eu sou o Félix. Fico aqui nessa labuta, todo santo dia tentando consertar os estragos que esses Ralphs que tentam te substituir fazem. É um saco. Eu não quero que eles destruam esse prédio. Porque esse prédio é seu. E tem meses (veja bem, meses!!) que eu estou aqui nessa função ingrata sem ter tempo nem pra comer. Toda hora sobe um lá em cima e começa a quebrar ele todinho. E eu fico lá, reparando cada rachadura que ele consegue fazer. Alguns já conseguiram grandes progressos. Mas meu martelinho de ouro é foda. Muito foda. Sempre consigo terminar a tempo de eu ficar com aquela carinha de apaixonado. Tem sete meses que eu não me apaixono. Eu. Sete meses esperando você, o verdadeiro Ralph dessa máquina, voltar. Mas você não volta. Não me manda postais, nada. Sete meses! Entenda isso como um recado. Sei lá, entenda isso como quiser: Chegou um Ralph novo aqui em cima, e ele é bom. Bom demais. E eu estou com muito medo de ele conseguir passar de fase. Volta logo, pelo amor de Deus.

Alta Fidelidade

Eu acho que te vi quase agora na rua. Na verdade, posso afirmar com (quase) total certeza que era você. Ali, no miolinho da Savassi. Fui na Leitura comprar o filme “Alta Fidelidade”. Desci do SC02, andei um pouquinho, virei a esquina e pronto! Receita rápida e fácil pra dar de cara com você, sentada naquela lanchonete da esquina em frente a Araújo. Se você não emagreceu demais (e espero que não!), era você mesmo! Cabelo meio loiro, pele branca, aquela coisinha de pano que as mulheres gostam de usar para cobrir os braços... você! É nessas horas que me percebo esperto. Em questão de três ou quatro segundos, vivi o susto, o medo, a vergonha, a timidez, a covardia e, por fim, a recuperação. Segui meus passos, passei bem ao lado e parei na frente do sinal que, óbvio, brilhava em vermelho. Estava tocando Band of Horses no iPod. Sempre lembro de você quando escuto Band of Horses. Foi o show mais bonito que vi na vida e você estava comigo. E, agora, você aparentemente ali, bem atrás de mim. “Não olha pra trás! Olha o seu estado! Olha o tamanho do seu cabelo! Você vai começar a suar e gaguejar... Não olha pra trás!” Por isso não acredito muito em aparências. Visulamente eu estava ótimo. Batendo pezinho no ritmo da música, olhando despercebido para a frente, olhar sério. Por dentro... Ah, por dentro! O caos. Se era você mesmo, tenho que dizer que estou muito chateado. Você podia ter me chamado. Ia fingir de bobo, esperar pelo meu nome pela segunda vez e olhar para a mesa com cara de paisagem. Mas você não me chamou. Fui para a Leitura - chateado! - atrás do “Alta Fidelidade”. Na volta, uns dez minutos depois, voltei pelo mesmo lugar com os ouvidos abertos e prontos pra escutar qualquer movimento a léguas de distância. Desci bem devagarinho a rua, olhando sempre em direção à lanchonete. E, quando eu estava para virar a rua e pegar o SC01, não deu outra. Eis que você vem caminhando em minha direção junto com sua amiga. Meu Deus, certeza que era você. Você estava usando uma saia preta, com as pernocas de fora. Você adora andar com as pernocas de fora! E você começou a rir do jeito que você ri! E você levou a mão direita até a testa, um movimento tão seu... Você sempre fazia isso quando estava sem graça! Meu Deus, em poucos minutos eu estaria de frente para você! Comecei a tremer, a suar frio, a perder o jogo do raciocínio. Tinha pouquíssimos segundos para tentar alguma coisa com o pouco de racionalidade que tinha me sobrado. Tive que fazer o que eu sei de melhor. Como se nada estivesse acontecendo e como se aquele momento não fosse o que eu mais desejo em meses, eu quebrei o pescoço pra esquerda, aumentei o volume do iPod no máximo e fui em direção ao ponto de ônibus. Assim. Simples. Prático. Eficiente. E muito, mas muito idiota. O ônibus demorou a chegar e esse tempo me consumiu por completo. Fiquei pensando na sua mão levada à testa, no seu sorriso, nas suas pernocas de fora... E me deu um rompante de virar para trás e ir de encontro a você! Era o que eu devia ter feito desde o começo! Mas, quando virei... cadê você e sua amiga? Cadê? Como assim você desapareceu tão rápido! Passaram-se apenas uns cinco minutos e você já tinha partido! Oh, meu Deus... E agora estou aqui, pensando. Eu mudei tanto por dentro e continuo o mesmo covarde por fora. E você continua a mesma! O mesmo sorriso, a mesma beleza, as mesmas pernocas de fora... O pior de tudo é saber que, sendo você ou não, o produto final dessa terrível equação amorosa não muda. Tudo continua do mesmo jeito. Miragem. Em alta fidelidade.

"- Pra começar, eu sou leão."

Toca é um lugar legal. É um lugar quentinho, é um lugar só seu. No meu caso, sem nenhum semelhante. Sem nenhum espelho, também. Sou eu e só. Não vou dizer que é ruim, tampouco vou dizer que é bom. Mas esse fim de semana, especificamente, minha toca estava um saco. Porque quando a toca fica um saco você começa a pensar demais. E pensar demais é uma das maiores tolices que já vi na vida. Não sai muita coisa boa. E quando não existe outro de sua espécie para compartilhar seus pensamentos, então... O fato é que esse fim de semana minha toca estava um saco a ponto de eu começar a me perguntar “Não existe nesse mundo outro espécime como eu? Aliás, que espécime mesmo eu sou?” De tanto pensara barriga roncou. É um fato: qualquer que seja a sua espécie, você vai sair da toca pra procurar alimento. Assim sendo, fui pra padaria comprar pão. “Sou de uma espécie que gosta de pão. Já é algum indício...” Cheguei à padaria escolhi os dez pães mais branquinhos que achei, passei a mão em duas cartelas de salame (“Sou de uma espécie que gosta de carne. Hum...”) e corri para o caixa. Duas pessoas na minha frente. À primeira vista, longe de serem da minha espécie. Não se parecem nada comigo. Depois que a primeira foi atendida e a segunda movimentou pra frente, uma turma entrou no meu campo de visão. Estavam comendo pizza. “Interessante, eu também gosto de pizza...” O grupo era composto de uma garota morena. Bem bonita, até. Na sua frente, um cara branquelo vestindo um moletom surrado. E, do lado dos dois, dois outros caras. Ou melhor: dois outros caras muito parecidos comigo. Tinham cabelos crespos tão grandes quanto o meu, mas estavam soltos Duas majestosas jubas ganhando o céu da padaria. O meu é uma bela juba, mas estava amarrado em um suntuoso coque no topo da cabeça. Há séculos não os deixo soltos. Na verdade, achei até engraçado esses dois terem essa liberdade. Nenhuma das espécies com quem convivo aprova meus cabelos soltos. Mas aqueles dois... Era quase natural estar com eles assim. Quando a senhora na minha frente terminou de pagar a conta e eu me direcionei ao caixa, aconteceu o inverso: eu havia entrado no campo de visão desse "bando". (Anos de toca te ensinam a observar completamente um ambiente desconhecido sem que percebam que você o está fazendo). Então, sem que me percebessem, vi um cabeludo dar um tapa na mão do outro cabeludo e apontar sorrateiramente o dedo pra mim. Já esse cabeludo cutucou o casal do lado e fez o mesmo. Em questão de segundos, oito olhos estavam colados em todos os meus movimentos. Achei estranhíssimo. Comecei a reparar nas minhas vestes. Pulseiras no braço, camiseta justa por baixo de uma jaqueta preta, calças largas, chinelo, braguilha fechada. Tudo certo. Mas, ainda assim, os quatro continuavam a me esgueirar Fiz uma cara de mau (sou bom nisso!), paguei a conta, peguei a sacola e segui adiante. Na volta pra toca, fiquei me perguntando o porquê do bando me olhar tanto. “Será que eu nasci perto deles e, por algum terrível acaso, fui desgarrado quando pequeno e nunca mais voltei? Talvez, poxa vida! Dois deles são tão parecidos comigo...” E deu uma vontade louca e repentina de voltar. Dar meia volta e me aproximar daqueles quatro. Quem sabe até sentar na mesma mesa e, humildemente, perguntar: - Olá, meu nome é Rafael. Estou muito tempo trancado lá na minha toca, e lá não tem espelho nem outro semelhante, e acabei me esquecendo de muita coisa. Vocês dois, em especial, são muito parecidos comigo. Então, pra começar... Vocês podem me dizer qual é a espécie de vocês? É claro que eu não voltei. Minha espécie sofre de uma timidez terrível e aguda. Mas uma coisa, ao menos, eu me prometi: amanhã mesmo comprarei espelhos.

Os espólios de tio Preto, parte 2 - Thiago Sávio

Das muitas lendas que circulam na família, uma delas é a de que tio Preto veio ao mundo para cuidar do próximo. E existem provas muito excelentes a seu favor: tio Preto, de tempos em tempos, resolve ter outro filho. Primeiro veio Emiliano. Depois, Rafael. E agora, em sua nova jornada, ele vai levar consigo Thiago Sávio. Thiago Sávio. Loiro, bonito, um pouco baixinho e sensual. 28 ou 29 anos muito bem escondidos pelo semblante de 18. À primeira vista, um genro perfeito para qualquer mãe e um marido perfeito pra qualquer mulher. É educado, parece caseiro e - ninguém é de ferro! - gosta de uma cervejinha. Thiago Sávio veio a tio Preto de forma muito similar à de Emiliano. Emiliano apenas estudava com o primogênito, Caio. Mesma sala. Apenas isso. Com o passar de alguns meses, reconheceu nas "asas" de tio Preto um belo recanto para sossegar das dificuldades da vida e crescer em tempo e em paz. Thiago Sávio apenas fazia natação com o caçula, Breno. Mesma turma. Foi chegando tímido, foi tornando-se amigo, conquistando corações e dividindo as dúvidas com aqueles que, talvez por ordem do destino, viriam a ser sua nova família. Thiago Sávio deixa em Belo Horizonte a família que tanto ama, alguns prováveis corações partidos e sua moto. Leva consigo a Primeira Eucaristia (conquistada recentemente), a sua fé, a paixão de uma dona de quiosque que o aguarda na praia de Porto Seguro e uma câmera fotográfica. Thiago Sávio quer ser fotógrafo. Quer registrar a beleza da vida através de uma lente. Tio Preto usa óculos. Pai e "filho", talvez.