terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Os espólios de tio Preto, parte 1 - Jorge Clone
Começou com ele. O caçula. O último componente a integrar a família. É muito difícil levar um cãozinho numa mala, ainda mais se for pra bem longe. Na falta de possibilidades (e na vontade de ele, de certa forma, continuar na família), entrou no carro para um derradeiro teste: Curvelo.
Jorge chegou irreconhecível. Nada de correria, nada de travessuras. Apenas entrou e observou. Cauã Raimundo, o anfitrião da casa, comportou-se como um gentleman. Cheirou, cheirou, cheirou de novo e o deixou ficar.
Os dois se deram muito bem. Muito mais do que qualquer expectativa imaginada. Dividiram água, comida, espaço e carinho. Tudo da melhor maneira possível. Apesar de raças tão díspares, talvez tornem-se grandes irmãos.
Jorge descobriu ainda outro bicho curioso, que vive a vagar sonolento pelo quintal: Slow, o jabuti. Estranhou como se fosse algo de outro planeta mas, aos poucos, começou a entender. O mundo era muito mais vasto que aquela casa da capital. Agora ele vai conviver com flores, rosas, capins, buganvilas, trevos de quatro folhas, passarinhos, beija-flores, cachorros e jabutis.
Jorge adotou o banco da varanda como seu lugar predileto. Por várias vezes nas últimas 48 horas, espalhou-se feito um tapete, mirou o horizonte e ficou a pensar na vida.
Jorge perdeu muita coisa. Mas ganhou muita coisa, também. Porque a vida é assim.
Na partida, últimos afagos. A distância vai ser implacável, mas o amor vai permanecer.
Porque, no final, o amor sempre permanece.
Das seis vidas destinadas ao recomeço, a de Jorge foi apenas a primeira.
Restam cinco.
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