terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"- Pra começar, eu sou leão."

Toca é um lugar legal. É um lugar quentinho, é um lugar só seu. No meu caso, sem nenhum semelhante. Sem nenhum espelho, também. Sou eu e só. Não vou dizer que é ruim, tampouco vou dizer que é bom. Mas esse fim de semana, especificamente, minha toca estava um saco. Porque quando a toca fica um saco você começa a pensar demais. E pensar demais é uma das maiores tolices que já vi na vida. Não sai muita coisa boa. E quando não existe outro de sua espécie para compartilhar seus pensamentos, então... O fato é que esse fim de semana minha toca estava um saco a ponto de eu começar a me perguntar “Não existe nesse mundo outro espécime como eu? Aliás, que espécime mesmo eu sou?” De tanto pensara barriga roncou. É um fato: qualquer que seja a sua espécie, você vai sair da toca pra procurar alimento. Assim sendo, fui pra padaria comprar pão. “Sou de uma espécie que gosta de pão. Já é algum indício...” Cheguei à padaria escolhi os dez pães mais branquinhos que achei, passei a mão em duas cartelas de salame (“Sou de uma espécie que gosta de carne. Hum...”) e corri para o caixa. Duas pessoas na minha frente. À primeira vista, longe de serem da minha espécie. Não se parecem nada comigo. Depois que a primeira foi atendida e a segunda movimentou pra frente, uma turma entrou no meu campo de visão. Estavam comendo pizza. “Interessante, eu também gosto de pizza...” O grupo era composto de uma garota morena. Bem bonita, até. Na sua frente, um cara branquelo vestindo um moletom surrado. E, do lado dos dois, dois outros caras. Ou melhor: dois outros caras muito parecidos comigo. Tinham cabelos crespos tão grandes quanto o meu, mas estavam soltos Duas majestosas jubas ganhando o céu da padaria. O meu é uma bela juba, mas estava amarrado em um suntuoso coque no topo da cabeça. Há séculos não os deixo soltos. Na verdade, achei até engraçado esses dois terem essa liberdade. Nenhuma das espécies com quem convivo aprova meus cabelos soltos. Mas aqueles dois... Era quase natural estar com eles assim. Quando a senhora na minha frente terminou de pagar a conta e eu me direcionei ao caixa, aconteceu o inverso: eu havia entrado no campo de visão desse "bando". (Anos de toca te ensinam a observar completamente um ambiente desconhecido sem que percebam que você o está fazendo). Então, sem que me percebessem, vi um cabeludo dar um tapa na mão do outro cabeludo e apontar sorrateiramente o dedo pra mim. Já esse cabeludo cutucou o casal do lado e fez o mesmo. Em questão de segundos, oito olhos estavam colados em todos os meus movimentos. Achei estranhíssimo. Comecei a reparar nas minhas vestes. Pulseiras no braço, camiseta justa por baixo de uma jaqueta preta, calças largas, chinelo, braguilha fechada. Tudo certo. Mas, ainda assim, os quatro continuavam a me esgueirar Fiz uma cara de mau (sou bom nisso!), paguei a conta, peguei a sacola e segui adiante. Na volta pra toca, fiquei me perguntando o porquê do bando me olhar tanto. “Será que eu nasci perto deles e, por algum terrível acaso, fui desgarrado quando pequeno e nunca mais voltei? Talvez, poxa vida! Dois deles são tão parecidos comigo...” E deu uma vontade louca e repentina de voltar. Dar meia volta e me aproximar daqueles quatro. Quem sabe até sentar na mesma mesa e, humildemente, perguntar: - Olá, meu nome é Rafael. Estou muito tempo trancado lá na minha toca, e lá não tem espelho nem outro semelhante, e acabei me esquecendo de muita coisa. Vocês dois, em especial, são muito parecidos comigo. Então, pra começar... Vocês podem me dizer qual é a espécie de vocês? É claro que eu não voltei. Minha espécie sofre de uma timidez terrível e aguda. Mas uma coisa, ao menos, eu me prometi: amanhã mesmo comprarei espelhos.

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