terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Karinão
Estava chateado, pra baixo, inseguro e na pior quando, após o almoço, resolveu subir a ladeira em busca de refrigerante. Entrou, pegou uma Coca-Cola e foi para o caixa. E eis que, enquanto passava o cartão na máquina, levou uma cutucada no ombro.
Uma velha conhecida toda sorridente. Céus! Não faltava mais nada.
- Você sumiu demais! Me dá um abraço aqui, gato!
E tudo mudou.
Nem bomba atômica seria capaz de fazer tanto efeito. Nem a picada de uma aranha radioativa, nem radiação gama e nem cinto de utilidades.
“Gato”, pensou. “Ela me chamou de gato.” “Eu sou gato?” “Eu sou gato!”
“EU SOU GATO!”
Voltou do abraço com um sorriso canalha, de galã de rock. Ouriçou as sobrancelhas, inchou o peito, ergueu o pescoço, fez cara de mau.
“EU SOU GATO! PUTA QUE PARIU.”
E desceu junto com a amiga os 500 metros de ladeira. Encarava imponente no olho de todos que passavam ao seu redor. Mulheres, homens, qualquer um. Estava do lado de uma mulher que o achava gato (ou, pelo menos, era nisso que queria acreditar). Ninguém mais nas redondezas podia dar conta do seu incrível poder de sedução.
“EU SOU GATO!” “EU SOU GA-TO!”
Chegaram na porta da empresa e se despediram. Morreu de vontade de dizer “Obrigado por me salvar” e cobrir suas mãos de beijos, mas contentou-se em dar o melhor abraço possível. Além do mais, o abraço de um gato já é incrível por si só.
Ficou de frente para as duas portas de vidro da entrada. Nelas, ele enxergou seus cabelos enormes e desengonçados, sua vistosa camisa verde-musgo, suas calças com um rasgo gigante no joelho direito e sua Coca-Cola. Um homem feito (e com feições até bonitas se olhar com mais jeito). Um verdadeiro gato!
Respirou fundo e entrou como se estivesse indo dar um show.
Ele não vai procurá-la amanhã novamente. Não se apaixonou perdidamente por ela. Muito menos passou a tarde inteira revivendo aqueles atraentes olhos verdes o chamando de gato.
Não queria um outro amor. Só queria acreditar.
Ele só precisava de um “sim”.
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