terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sobre a paz

porque tudo começa e tem tudo pra ser um dia monótono como foram os outros 354. nada de novo, nada de interessante, nada que te prenda a atenção por mais de dois minutos - e olha que dois minutos é ser muito otimista. o mesmo motorista, o mesmo cobrador de ônibus. os mesmos flertes chamando no Whatsapp. a mesma mesa cor-de-madeira-surrada. os mesmos colegas de trabalho. as mesmas estagiárias. aquela mesma colega de trabalho que tá ali do seu lado tem quase um ano e que você não sabe muito a respeito apenas que é bonita e que hoje está usando um tomara-que-caia branco com uma pinta logo acima dele? mas o que é isso? quem é essa pinta? quem colocou essa pinta aqui? que dia essa pinta chegou pra trabalhar do meu lado? e aí você fica cinco minutos olhando aquela pinta que até o dia anterior nunca havia batido ponto naquela empresa. os cinco minutos viram dez que viram vinte que viram duas horas. e você passa todo o resto do dia olhando de rabo-de-olho aquela pinta em cima do peito. "meu Deus como eu passei a minha vida inteira sem saber você, pinta em cima do peito?", “que merda de vida eu vivia que não te procurei antes, pinta em cima do peito?”. e o corpo esquenta. você começa ri pra pinta em cima do peito. você acha graça do desespero das pessoas ao redor que reclamam da monotonia do dia. "monotonia? por Deus, onde vocês vivem? tem uma pinta em cima do peito bem do meu lado. monotonia?" e todo globo terrestre com tudo que tem dentro dele vira uma pinta em cima do peito. e a vida fica feliz como há muito não acontecia antes. e você vai passar o resto do que sobra do ano esperando ardentemente que ela volte no outro dia e no outro dia com uma blusa tomara-que-caia que mostre novamente aquela pinta em cima do peito. aos olhos coube o difícil trabalho matemático de entender como um pontinho preto foi capaz de transformar toda a sua paleta de cores em rosa. ao coração, eterno idiota, restou o suspiro: "aqui jaz a minha paz".

Nenhum comentário:

Postar um comentário