terça-feira, 31 de dezembro de 2013
eu não sou da sua rua
Eu sempre fui assim. Antes mesmo de saborear um prato, já estou pensando na sobremesa.
Decidi qual seria minha segunda tatuagem na noite que antecedeu a primeira. Queria porque queria duas tatuagens ao invés de uma só. Porque sou exagerado. Uma contradição, porque minha primeira tatuagem quer dizer “menos é sempre mais”. Comecei a pensar em todos os versos de todas as músicas que já ouvi na vida em busca de uma que me fizesse um sentido enorme. Depois de minutos e minutos pensando, recorri a Arnaldo Antunes. E, claro, achei. O cara é um gênio.
“Eu não sou da sua rua.” Escrita com letra de máquina de escrever no meio do braço esquerdo.
Uma pessoa entendeu.
Mas o que quer dizer “Eu não sou da sua rua”?
Fui criado no interior, graças a Deus.Fui criado nas calçadas da minha rua com uma turma gigante de meninos. Todos de pés no chão e solas de aço. Menos eu, porque mamãe sempre me fazia brincar de chinelo, zelosa que só. No interior, a palavra “rua” tem um sentido amplo,muito amplo. No interior, “rua” é aconchego, é abrigo, é amizade, é união, é identificação. No interior, “rua” é casa. As casas do interior não começam do muro pra dentro, começam da rua pra dentro. Eu saí de Curvelo aos 19 e, oito anos depois, sou capaz de dizer o nome de todos os meus vizinhos. Porque eles ainda são os mesmos. Alguns se mudaram, claro, mas tem muita gente por lá. Se eu sentar no passeio da minha casa por 20 minutos, sou cumprimentado por todos pelo nome, seguido de “como vai a vida lá em BH?”. Em oito anos de Belo Horizonte, não sei o nome nem de cinco vizinhos. Quanto mais o interior de suas casas.
Mas o que quer dizer “Eu não sou da sua rua”?
Bom, eu saí de lá. E deixei o cabelo crescer, e comecei a usar roupas apertadas e brincos nas orelhas. Comecei afumar um pouco, também. E eu sei que cabelo grande e camisetas apertadas e brincos nas orelhas e cigarro de palha quer dizer um monte de coisa, dependendo do lugar onde você está. Posso ser um malandro, posso ser um vagabundo, posso ser um descompromissado. Eu posso ser gay.
Eu posso, mas não sou nenhuma das opções acima. Mas, infelizmente, por falta de tempo, não vou conseguir provar pra cada um o que sou de verdade. Eles não foram criados comigo, não são da minha rua. Não posso julgá-los. Eles podem pensar o que quiser de mim.
Num primeiro plano, portanto, “Eu não sou da sua rua” significa: “Não me julgue nem me rotule. Me conheça. Prazer,sou Rafael Soal. Talvez nunca sejamos amigos de infância, mas podemos ser amigos. Que tal?” Fim.
Mas aí pode surgir outra pergunta: “Então, qual é a sua rua?”
E eu digo: “A minha rua é a minha rua, assim como a sua rua é a sua rua.”
Eu, Diego e Eduardo fomos criados juntos. Na mesma rua. Amigos inseparáveis numa infância deliciosa. Se fomos criados na mesma rua, temos alguns preceitos em comum. Aprendemos juntos que não podemos tocar a campainha do vizinho e sair correndo. Isso é errado!Aprendemos que não podemos jogar bola na janela dos outros. Isso também é errado. Aprendemos a respeitar os mais velhos, pedir bênção mesmo depois de velhos, cumprimentar a todos com muita alegria e ser bom na escola, porque esse é o caminho para um futuro melhor.
Mas se fomos criados assim, tão juntos, somos os três iguais hoje em dia. Certo?
Eu, Rafael, saí de Curvelo aos 19 pra fazer faculdade de Publicidade. Não gostei. Fui trabalhar na Emater-MG mesmo contra a minha vontade. Namorei Analu, que me botou de novo na faculdade, só que de Jornalismo. Me formei. Trabalhei na Rádio por mais de seis anos e,agora, estou podendo escrever textos por lá, assim como minha faculdade pediu que eu fizesse. Sou feliz. Claro que não em todos os setores (o amoroso é um desastre total), mas sou feliz. Sou tímido, sou vergonhoso, tenho o cabelo grande e uso roupas apertadas. E acredito ter comigo todos os preceitos que aprendi com Diego e Eduardo. Ou, pelo menos, tento usá-los da melhor forma possível. Fim.
Diego foi o melhor amigo de infância que eu pude ter. Vivíamos um dentro da casa do outro e nos divertíamos muito. Pê Tê Autas, Rouba Bandeira, Esconde-Esconde, velotrol, carrinho de Rolimã... Tudo que uma criança pode sonhar. Diego nasceu pouco mais de um mês antes de mim. Na mesma rua. Então é identificação demais! Diego continuou em Curvelo, formou-se em Pedagogia. Não gostou, tinha sonhos maiores. Hoje está estudando Medicina.Com essa fabulosa carreira – que é quase como uma missão – é lógico que Diego carrega os mesmos preceitos de infância que eu. Ele era tímido, também. Mas,pelo que vejo no Facebook, hoje ele ta danado de esperto! Nos distanciamos, tem anos e anos e anos que não nos falamos. Mas tenho certeza que, quando nos encontrarmos, será como o dia anterior do último “Até amanhã, meu amigo!”
Eduardo. Ou Eduardo Canibal para os íntimos de infância. Uma força da natureza. Só quem conheceu Eduardo sabe o que é Eduardo. O equilíbrio da balança de uma turma repleta de anjos. O mais encapetado, o mais radiante, o mais espoleta. Ouso dizer “o mais feliz”. Fazia o que dava na telha. O corpo parecia o de um viking: repleto de cicatrizes,lembretes de uma vida que não sabia o que era medo. Eduardo cortou um caju ao meio, fez um desenho na polpa, e colou na sua pele, embaixo de um sol escaldante. Uma tatuagem orgânica. A primeira tatuagem que vi na minha vida. Os primeiros palavrões que ouvi na vida saíram da boca dele. Eu não entendia nadado que ele falava, mamãe dizia que era recado. Mas ele falava com uma boca tão boa... Era libertador ouvir ele xingar. Como pode isso ser pecado?
Não tenho o que dizer sobre o que Eduardo fez. Desculpem-me todos que chegaram até aqui. O que faz uma força da natureza? Desaparece. Simples assim. E volta quando quer, como ele sempre fez.Depois que saí de Curvelo, vi Eduardo apenas duas vezes. O que eu posso dizer?Ele tinha um bom coração. Um coração lindo e urgente.
Acontece que, quando entrei no ônibus para Curvelo, na quarta-feira passada, recebi uma mensagem do Diego. Uma mensagem melancólica e saudosa. Eduardo havia morrido naquela madrugada. Ele sempre viveu rápido demais.
Eu fiquei muito triste. Já mamãe,chorou por Eduardo. A minha mãe chorou por Eduardo. Entendem o significado de “rua”?
Três garotos criados juntos. Um é jornalista. Outro será médico. O terceiro viveu pelos três e morreu.
Três garotos. Uma rua. Três destinos.E uma saudade enorme da nossa amizade.
Cada um ladrilha a sua própria "rua".
Não vou julgar Eduardo jamais, mesmo ele sendo da minha rua.
Esse texto é pra ele. E a minha segunda tatuagem, também.
A gente (ainda) se vê, meu amigo.
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