terça-feira, 31 de dezembro de 2013
A cartilha infalível do Zezé
Essa semana o pai lhe fez muita falta e ele chorou duas vezes por isso. Afinal, seu pai arrebatou em tempos de Jovem Guarda e rock brasileiro uma mulher muito especial desse mundo: a sua mãe. Se o seu pai conseguiu arrebatar a sua mãe, por Deus, ele sabia todos os camihos possíveis entre a conquista e o amor.
Mas os dois nunca conversaram um com o outro sobre como conquistar uma garota. Nunca. "Meu filho, você vai fazer assim, como o papai fez...". Nunca houve essa conversa. Os dois viveram na mesma casa por 19 anos permeado por olhares carinhosos e vontades mudas de dizer "Eu te amo!" um para o outro. Mas o pai lhe era um herói. O seu pai reunia num homem só todos os atributos necessários para se ter a mulher que ama. Sempre foi assim.
Seu pai tinha cabelos longos na juventude. Longos e lisos, batendo no ombro. Usava calça boca-de-sino. Gostava do rock brega. Era esbelto, muito esbelto. Tinha o sorriso bonito (e todos diziam que ele tinha o sorriso do pai e isso era o seu maior orgulho). Sabia falar com as garotas. Conquistava as garotas. E era um pé-de-valsa. Meu Deus, como dançava! Cresceu vendo o seu pai não conseguindo tempo para sentar nas festas, tamanha quantidade de senhoras o tirando para dançar.
Um super-herói. O seu pai não era desse mundo. Existem super-heróis no mundo real? Não.
E lhe doeu todos os dias dessa semana o fato de seu pai não ter lhe ensinado como ativar todos esses super-poderes. Ele tinha o DNA do seu pai, todos esses super-poderes estavam ali, guardados. Mas ele não sabia o código para extravasá-los. Mas ele teve que agir, sem super-poderes ou não. E qualquer pessoa desse mundo, se ouvisse tudo que ele tentou fazer, não teria outra palavra pra definir senão "desastroso".
Foi quando que, na aurora do segundo encontro, ele tomou a decisão final: "Vou tentar ser hoje tudo o que eu pude ver o meu pai ser!" Ele tinha os cabelos longos como o pai. Não eram lisos, mas eram longos. Ele tinha uma calça boca-de-sino como o pai. Não era masculina, mas era uma boca-de-sino. E todo o resto seria, infelizmente, por 'feeling'. Lembrou de tudo o que era capaz da sua infância e do seu pai e da sua mãe e das senhoras que o tiravam pra dançar e saiu.
"Eu preciso tentar ser como meu pai."
Pediu à garota para pegá-la em casa. Tentou ser gentil ao máximo. Tentou conversar. Cometeu gafes extraordinárias, mas tentou conversar. Quase a tirou pra dançar quando o cantor de FM começou a tocar aquela música, mas ele não sabia dançar e estava chovendo e ninguém estava dançando no bar. Pagou a conta. Sim, ele pagou a conta! "Essa é pra você, pai!", disse ao colocar o cartão na maquininha. Deu as mãos. Beijou. (Ele nunca tinha perguntado pra mãe como erao beijo do pai. Aliás, algum filho pergunta?). Não a convidou pra dormir na casa dele, porque isso não está certo. Seu pai, com certeza, não levou a sua mãe pra dormir na sua casa. Claro que não, isso não está certo. Não assim e não agora. De jeito nenhum.
E acabou.
Chegou em casa e quis telefonar: "Alô! Pai? Pai, o senhor me fez muita falta essa semana mas, olha, eu tente fazer tudo o que o senhor me ensinou, pai!" Mas era tarde, seu pai com certeza estava deitado na cama ao lado da mulher que ficou ao lado dele por ele ser o que é.
E na cabeceira da cama do seu quarto ainda repousa em silêncio a velha cartilha invisível que seu pai lhe deu. Datada, empoeirada, amarelada. Escrita há milênios por antepassados que, assim como seu pai, não eram desse mundo de smatphones, Facebooks e etc. Era sua maior herança. Uma herança difícil e pesada. O mundo lhe dizia a todo momento que segui-la traria má sorte. "Mas se deu certo com meu pai, por que temer? É o meu pai!"
'Cartilha da Ordem dos Cavalheiros, Mandamento Único: Acima de tudo, seja um cavalheiro.'
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