terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Sou/Nós
Omissão.
Se pedissem a ele para definir em uma palavra o relacionamento dos dois, seria essa: omissão.
Afinal de contas, como explicar as dezenas de tentativas abortadas de escrever pra ela? Dezenas. Algumas foram feitas com caneta, como nos áureos tempos. Seriam enviadas por Correio e tudo. Mas nunca chegaram nem na metade. Duas chegaram a existir de fato. Mais de duas páginas. Ao fim, ele olhou em suspiro: "Meu Deus, que idiotice..." Lixo.
Lixo lixo lixo. O fatídico destino de todos os seus tolos sentimentos.
É que ela fora o amor de sua vida em uma época em que suas crenças e seus valores jamais o permitiriam se declarar. Céus, isso estava sumariamente proibido. Passou meses e meses calado, mas sempre por perto. Sempre.
E aí a vida dá uma volta e outra volta e eles acabam marcando um encontro dois ou três anos depois de tudo. Nenhum de ambos é mais o mesmo. Ele já traz marcas no rosto, as olheiras herdadas pela mãe estão maiores. Os cabelos dela estão tão grandes como nunca estiveram. Ela viu o mundo, ele mergulhou no próprio. E por aí vai.
Falaram majoritariamente de amor. Amor. Palavra desconhecida pra ele e descoberta por ela. Contou que encontrou o homem da sua vida do outro lado do oceano. Mas isso não quer dizer que eles vão viver o resto da vida juntos. Ela apenas o encontrou, mas não manda na vida e nem no tempo. Mas disse que sentia paz ao seu lado. Sentia vontade de ficar.
Ele, sempre calado, falou do que ele considera, aos 27 anos, ser o seu grande amor. Contou uma história enorme, conhecida em sua totalidade por quase todos os que o cercam. Mas não convenceu. Suas palavras não condiziam com suas expressões. Carne e verbo não batiam. Ele demonstrava dúvida, apesar de tudo e de tanto tempo. O diagnóstico dela: "Quando estiver diante do seu grande amor, você vai apenas saber. E vai querer ficar."
Cervejas caras depois, ela saiu por instantes. Instintivamente, ele pegou o sachê de catchup, abriu entre os dentes e pintou em vermelho-sangue as batatas fritas. Feito. Seu coração foi colocado à mesa.
E aí o final. Ela mencionou por segundos o passado. Aquele que ele jogou no lixo por mais de dez vezes. Seria a hora? Uma pena: a cerveja não venceu o medo em tempo. Teve de fazer o que fazia de melhor.
Olhou para o coração na mesa. Arrancou a batata frita central e o partiu ao meio. Coração na mesa, coração na boca. De todas as centenas de palavras escritas pra ela e nunca lidas por ela, escolheu dizer:
"Pois é."
"Pois é" é o nome de uma música do Los Hermanos. Escrita pelo Marcelo Camelo. Autor do primeiro e único disco que ele a deu de presente.
Onde tudo começou.
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