terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Alta Fidelidade

Eu acho que te vi quase agora na rua. Na verdade, posso afirmar com (quase) total certeza que era você. Ali, no miolinho da Savassi. Fui na Leitura comprar o filme “Alta Fidelidade”. Desci do SC02, andei um pouquinho, virei a esquina e pronto! Receita rápida e fácil pra dar de cara com você, sentada naquela lanchonete da esquina em frente a Araújo. Se você não emagreceu demais (e espero que não!), era você mesmo! Cabelo meio loiro, pele branca, aquela coisinha de pano que as mulheres gostam de usar para cobrir os braços... você! É nessas horas que me percebo esperto. Em questão de três ou quatro segundos, vivi o susto, o medo, a vergonha, a timidez, a covardia e, por fim, a recuperação. Segui meus passos, passei bem ao lado e parei na frente do sinal que, óbvio, brilhava em vermelho. Estava tocando Band of Horses no iPod. Sempre lembro de você quando escuto Band of Horses. Foi o show mais bonito que vi na vida e você estava comigo. E, agora, você aparentemente ali, bem atrás de mim. “Não olha pra trás! Olha o seu estado! Olha o tamanho do seu cabelo! Você vai começar a suar e gaguejar... Não olha pra trás!” Por isso não acredito muito em aparências. Visulamente eu estava ótimo. Batendo pezinho no ritmo da música, olhando despercebido para a frente, olhar sério. Por dentro... Ah, por dentro! O caos. Se era você mesmo, tenho que dizer que estou muito chateado. Você podia ter me chamado. Ia fingir de bobo, esperar pelo meu nome pela segunda vez e olhar para a mesa com cara de paisagem. Mas você não me chamou. Fui para a Leitura - chateado! - atrás do “Alta Fidelidade”. Na volta, uns dez minutos depois, voltei pelo mesmo lugar com os ouvidos abertos e prontos pra escutar qualquer movimento a léguas de distância. Desci bem devagarinho a rua, olhando sempre em direção à lanchonete. E, quando eu estava para virar a rua e pegar o SC01, não deu outra. Eis que você vem caminhando em minha direção junto com sua amiga. Meu Deus, certeza que era você. Você estava usando uma saia preta, com as pernocas de fora. Você adora andar com as pernocas de fora! E você começou a rir do jeito que você ri! E você levou a mão direita até a testa, um movimento tão seu... Você sempre fazia isso quando estava sem graça! Meu Deus, em poucos minutos eu estaria de frente para você! Comecei a tremer, a suar frio, a perder o jogo do raciocínio. Tinha pouquíssimos segundos para tentar alguma coisa com o pouco de racionalidade que tinha me sobrado. Tive que fazer o que eu sei de melhor. Como se nada estivesse acontecendo e como se aquele momento não fosse o que eu mais desejo em meses, eu quebrei o pescoço pra esquerda, aumentei o volume do iPod no máximo e fui em direção ao ponto de ônibus. Assim. Simples. Prático. Eficiente. E muito, mas muito idiota. O ônibus demorou a chegar e esse tempo me consumiu por completo. Fiquei pensando na sua mão levada à testa, no seu sorriso, nas suas pernocas de fora... E me deu um rompante de virar para trás e ir de encontro a você! Era o que eu devia ter feito desde o começo! Mas, quando virei... cadê você e sua amiga? Cadê? Como assim você desapareceu tão rápido! Passaram-se apenas uns cinco minutos e você já tinha partido! Oh, meu Deus... E agora estou aqui, pensando. Eu mudei tanto por dentro e continuo o mesmo covarde por fora. E você continua a mesma! O mesmo sorriso, a mesma beleza, as mesmas pernocas de fora... O pior de tudo é saber que, sendo você ou não, o produto final dessa terrível equação amorosa não muda. Tudo continua do mesmo jeito. Miragem. Em alta fidelidade.

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