terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Eu nunca fui aluno da dona Ester
Pois é. A grande peça que o destino me pregou talvez seja essa. Eu nunca fui aluno da dona Ester.
Dona Ester nasceu Maria Ester de Souza. Filha de Lourival de Souza e Maria Gomes. A quarta de 10 irmãos. Formada em magistério e professora de português do Ensino Fundamental. Deu aula por 32 (ou 33) anos ininterruptos na Escola Estadual “Interventor Alcides Lins”. Brava. Exigente. Séria. Ensinou a centenas de curvelanos as dores e as delícias da língua portuguesa. Casada. Mãe de dois filhos.
Um deles, por acaso, eu.
Desde que pus o pé na escolinha, aos dois anos de idade, sabia que seria quase inevitável ser aluno de dona Ester. Curvelo é uma cidade pequena, não tinha muito pra onde fugir. Fora o fato que dona Ester é defensora feroz da qualidade do ensino público. Não deu outra. Na primeira série, fui parar bem no colégio em que ela já era quase uma lenda. O destino ia se cumprir em poucos anos, não tinha jeito.
E os meus amigos não deixavam por menos. Colocavam o terror sempre que uma oportunidade surgia. “Você é filho da dona Ester? Ih, já parou pra pensar que vai ser aluno dela? Sabia que ela é muito brava? Você tá perdido!” Uma tremenda covardia fazer um menino de sete anos tomar pavor da própria mãe.
Primeira série, segunda série, terceira, quarta... O Ensino Fundamental estava batendo na porta e a profecia estava pronta pra ser lavrada. Foi quando eu, aos 11 anos de idade, tomei as rédeas do meu destino. Passei na prova de seleção de uma escola particular: o Colégio Padre Curvelo. Saí completamente da rota de colisão com dona Ester. E o destino, como presente, me entregou Júlia como nova professora de português.
Julia nasceu Maria Júlia Miranda. Na época, professora de português no Alcides Lins e Padre Curvelo. Uma irmã de vida e profissão de dona Ester. Mãe de Amanda, Carla, Camila e Gustavo, o primeiro melhor amigo que tive na vida. Praticamente minha segunda mãe.
Júlia me deu aula de português e redação da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio (com exceção apenas do 1º ano). Mamãe deve ter ficado feliz, visto que o que eu fizesse de errado na sala de aula, ela saberia quase em tempo real. A base do meu português, portanto, se deve muito ao carinho de Júlia. Nas férias escolares, eu ia em sua casa e buscava uns 10 livros infanto-juvenis para me divertir nas horas folgas. Ela tinha todas as novidades possíveis! Todos os lançamentos! A casa da Júlia era como um parque de diversões pra mim. Júlia acompanhou meus primeiros textos, minhas primeiras dissertações, minhas primeiras interpretações de texto. Eu ganhei minha primeira gramática (só minha, porque mamãe tinha umas duzentas) por causa dela. Eu tenho muito da Júlia em mim.
Acabou o terceiro ano. Formatura, choradeiras e... futuro! “O que você quer para o futuro, Rafael?” Depois de uma leve inclinação para a Biologia e uma tentativa frustrada na Publicidade, resolvi escrever. E aqui paira outra lenda: a de que não haveria outro caminho pra mim, sendo filho de uma professora de português e gostando tanto de ler e escrever. Vai saber... Eu quero mesmo é ser jornalista!
A faculdade foi um choque. Porque você não tem tanto tempo para desenvolver laços afetivos com todos os professores. A rotatividade é intensa! Cinco mestres novos a cada seis meses. Um absurdo. Não haveria outra Júlia para me mimar e muito menos pra contar a dona Ester em tempo real meus deslizes na sala de aula. Estava sozinho e desamparado, agora. Saí do quentinho interior mineiro para a vida. Muitas vezes dura, outras vezes cruel, de vez em quando doce. Vida.
Dos mais de trinta professores que tive na faculdade de Jornalismo, por muita sorte, levarei alguns eternamente comigo. Eles cumpriram sua missão de forma fantástica, substituíram a Júlia (e, secretamente, dona Ester) de forma excepcional. Me bateram quando tinham que bater, me elogiaram quando tinham que elogiar, me deram 77 em 100 quando tinham que dar (pois é, minha primeira nota em português abaixo de 80% foi na faculdade). Me ensinaram.
Abel, o ursinho carinhoso travestido de malvado. Ana Rosa, que misturou língua portuguesa e charme na minha cabeça. Leo, um modelo do que pretendo ser um dia (escritor). Fabrício Marques (ou Brandon Flowers), o cara que me deu um jornal raro de presente ao fim da sua matéria. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Edmundo, dono da melhor interpretação de um texto do Nelson Rodrigues que presenciarei na vida. Wanir Campelo, responsável por minha completa desconstrução e responsável por eu decidir que o Jornalismo seria minha profissão. Ângela Moura, a doce voz e doce alma do rádio. Gisa Campos, a destruidora de timidez frente às câmeras. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Murilo, o risonho jornalista científico. JJ, o espírito vivo da paixão de ser jornalista. Lorena Tárcia (ou Clarice Falcão), a pessoa que mais faz coisas ao mesmo tempo que já vi na vida. Multimídia de corpo, alma e coração.
Fernanda Agostinho, minha paixãozinha da faculdade e escritora de lindos e-mails.
Érika Savernini, a paciência em pessoa e dona de um pedacinho do meu coração.
Maurício Guilherme, meu mestre. Meu amigo, meu irmão. Compartilhou de minha alma nos últimos seis meses de faculdade, meu orientador de monografia. Me deu a mão até a porta de saída, me entregou o diploma na colação. E me ensinou a usar a vírgula.
Tantos mestres, tantas lições, tanta entrega... E eu não fui aluno da dona Ester.
O que eu sempre ouvi é que esse destino nunca se cumpriria. Eu jamais sentaria numa cadeira da sala de dona Ester. Porque ela não queria. Ela não ia permitir. Deve ser muito duro pra uma mãe ter o filho como aluno. E na hora de corrigir as provas? E se eu tirasse total? Ela poderia me elogiar em sala de aula? Ela seria capaz de me colocar pra fora da sala de aula? Ela seria capaz de me ver chorando pela menina que não me deu bola sem sentir nada?
Se é difícil ser mãe de aluno, imagine ser professora de um filho.
E, assim, eu não fui aluno de dona Ester. Ou, pelo menos, não numa sala de aula. Porque na vida... Ah, na vida...
As primeiras palavras, os livros da Série Vagalume, os cadernos de caligrafia, as noites em claro preocupada com minha tensão nas provas finais, os tênis e uniformes novos, as orações pra que desse tudo certo, os puxões de orelha pelas notas medianas, os abraços nos momentos de vitória, o choro nos de alegria, a vigilância em me acompanhar pela faculdade, mesmo estando a 170km de distância.
Eu fui aluno de dona Ester de uma forma tão especial que nenhum dos outros mais de cem foram.
A dona Ester, a professora Ester, é minha MÃE.
A todos os mestres aqui citados (e a todos aqueles de quem esqueci, mas fazem parte do que sou hoje), uma maçã do amor na mesa de cada um.
E duas na mesa de dona Ester.
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