terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Sobre o não-pertencimento
"eu tenho pressa! tanta coisa me interessa! mas nada tanto assim..."
o não-pertencimento. a fina arte de saber - ou achar, porque uma garota me disse dia desses que a gente nunca sabe de nada - que nada em sua volta é seu.
vivi até os 19 anos em Curvelo, minha terra natal. isso aqui era meu. meu quarto, minha casa, minha rua, meus amigos, meu colégio, minha cidade. um pequeno e maravilhoso universo que guardava muito bem a minha alma. não havia nada que me faltasse aos 19. nenhuma cidade desconhecida, nenhuma praia, nenhum rosto novo. eu não precisava de nada. aí aos 19 eu fui morar com meu tio. como a família adora dizer, saí de uma barra-de-saia para entrar em outra. nada mudou tanto assim. tio Preto é meu tio e também meu padrinho. me trazia presentes fantásticos todo Natal. é irmão da minha mãe. de fato, saí de uma barra-de-saia para entrar em outra. e debaixo dessa nova barra-de-saia fiquei mais oito anos. não era meu quarto, não era minha casa, não era minha rua e nem era meu colégio. mas ainda sim era minha família. e passei oito anos num não-pertencimento velado. nada daquilo era meu, mas meus pais me ensinaram bons modos de uma forma assustadora. eu estava na "casa dos outros", deveria ter obediência e gratidão por todos que me acolheram. então todas as vezes que eu queria fazer algo que só eu queria (escutar música bem alto, na maioria das vezes), eu dizia que ainda não era a hora de fazer isso e que essa hora ia chegar um dia. e guardava aquilo em algum lugar do peito. com isso, acabei descobrindo que tenho um recipiente infinito dentro do peito. porque se eu pensei em ouvir música bem alto uma vez por dia em 8 anos, eu fiquei com essa vontade guardada 2.920 vezes - tirando os anos bissextos. sabe o que é reprimir uma vontade 2.920 vezes? não queira saber. e isso só porque estou falando de música alta. no mínimo eu reprimi cada vontade 2.920 vezes. enfim, um recipiente infinito. ou nem tanto. porque quando eu percebi que ele não ia aguentar tanta vontade reprimida eu passei a me fechar. "se eu sair e beber um pouco mais do que devia vou dar preocupação para o meu tio. e o recipiente infinito tá quase cheio, logo, eu não vou sair." é uma lógica. errada, mas uma lógica. aliás, todas as lógicas são erradas. não entrem nessa de lógica. e no decorrer de oito anos eu fechei muitas comportas do navio pra ele não afundar num mar profundo de desejos. e funcionou. mas toda ação tem uma reação, e ela vai chegar. não se enganem porque ela sempre vai chegar. e chegou pra mim.
quando meu tio Preto foi embora eu ganhei uma casa nova. não era nova porque ela sempre esteve lá, mas pra mim era nova. era minha! eu nunca tive uma casa só minha e ganhei uma, então ela era nova! uma sala ligada com a copa, dois quartos, uma cozinha, um banheiro e uma varanda onde eu sento pra ver a lua. enorme. enorme e minha. toda ação tem uma reação, certo? a primeira coisa que fiz na minha casa foi pregar o vinil 'Abbey Road' na porta do meu quarto. não era um quadro, era um vinil. eu peguei um vinil e colei na parede. a segunda coisa que fiz foi ouvir música bem alto. a primeira música que tocou na minha casa foi "À Janela", do Robertão. qualquer dia desses procurem a letra, talvez entendam o motivo. e depois do Robertão veio meu iPod inteirinho. eu passei dias e dias não fazendo absolutamente nada a não ser ouvir música bem alto. deixei de ver novela e ver qualquer outro programa de televisão porque eram 2.920 vezes de vontade acumulada de ouvir música. não dá tempo de ver novela. não dá tempo de fazer nada. e, aos poucos, todo o espaço da casa foi inundado pelas minhas vontades reprimidas. as paredes estão cheias de discos. tem um tiro-ao-alvo na porta do meu quarto. tem uma máquina de escrever no meio da sala. meu violão, meu baixo e minha guitarra enfim ocuparam o lugar que sempre mereceram dentro do meu quarto. os livros estão na estante. os DVDs estão na estante. 1/10 dos meus CDs estão na estante. até comprar um papai Noel eu comprei. bem bonitinho. fica em cima da máquina de escrever. era tanta vontade reprimida que em menos de um mês eu fiz uma casa inteira ficar do jeito que eu queria. e tem uma cama de casal. eu, que sempre dormi em cama de solteiro ao lado dos meus primos Breno e Caio, agora tinha uma cama de casal. toda pra mim. pra ficar fazendo estrelinha de tarde ou esticar todos os membros durante a noite. mas desde pequeno a gente sabe pra quê serve uma cama de casal. e não é pra fazer estrelinhas de tarde. é pra fazer sexo. e Erasmo Carlos diz que sexo é amor. aquela casa estava precisando de amor.
então as comportas do navio foram finalmente abertas.
passei a viver mais em 3 meses do que vivi de fato em 8 anos. claro que em 8 anos eu fiz minhas loucuras, então não me considere um anjo nem um exilado. considere apenas que deveria ter vivido mais. deixem que gostassem de mim, algo que eu não sei fazer muito bem. amizades novas e fantásticas se solidificaram em um tempo recorde. e essas amizades novas trouxeram amizades novas. até uma garota essas amizades novas trouxeram. poderia falar "até um amor essas novas amizades trouxeram", mas as pessoas tem um pouco de medo dessa palavra, então eu vou deixar apenas "até uma garota". amizades antigas começaram a amar amizades antigas. coisas impossíveis começaram a se materializar de forma assustadora. eu recebi amigos na minha casa. por Deus do céu, eu nunca recebi amigos em 8 anos na casa do tio Preto. eu saio mais a noite e chego tarde e não preciso fazer pouco barulho pra não acordar ninguém porque não tem ninguém pra acordar. eu passei a pagar contas e, consequentemente, passei a comprar menos discos e livros. eu me descobri um cara que gosta das coisas limpas e arrumadas, embora lavar banheiro seja o maior saco desse mundo. eu passei a lavar minhas próprias roupas. eu passei a me preocupar em ganhar mais dinheiro. eu fiquei oito anos sem me preocupar em ganhar mais dinheiro. dinheiro nunca me importou. eu passei a pensar no futuro. e, aos poucos, eu passei a cumprimentar algumas pessoas como minha avó cumprimentava as pessoas: "eu vou indo. eu vou indo..." em 3 meses eu passei a fazer parte de um grupo, com todas as dores e delícias que um grupo pode ter. eu tenho amigos de fé e irmão camaradas, e eles também me tem. na medida do possível, porque eu ainda gosto do silêncio que a música alta me proporciona numa noite de sexta-feira.
e onde está o não-pertencimento? em tudo. essa é a melhor resposta que posso dar por enquanto. perdoem-me por terem lido isso tudo e ver que isso tudo termina apenas nessa resposta: "em tudo." aliás, essa resposta é a prova concreta de um não-pertencimento.
em 2014 eu pretendo trabalhar na Rolling Stone. lá é o meu lugar. eu sei que é. ou eu acho que é, porque dia desses um garota me disse que eu não sei de nada. e se eu for pra lá e descobrir que lá não é o meu lugar? eu amaria escrever sobre música o dia todo! mas será que se a gente amar todo dia o amor não acaba? como uma pastilha de freio de carro. como dar murro em ponta-de-faca.
sempre passo o Natal na minha terra natal. sempre. Curvelo. estou aqui desde segunda. é a minha cidade, minha rua, minha casa, meu quarto. sim, o meu quarto. meus pais conservaram o meu quarto intacto desde a minha partida. tudo está exatamente como eu deixei aos 19 anos de idade. e aí eu sento na cama e olho para o meu quarto e não me reconheço. esse quarto não é meu. ou talvez eu não seja mais desse quarto. nem dessa casa. nem dessa rua. nem dessa cidade. mas eu também não sou da sua rua. não-pertencimento.
é perigoso abrir as comportas do navio. porque toda ação tem uma reação.
no mesmo programa de rádio que ontem tocou uma música do Robertão da década de 70 hoje tocou uma música de Natal do Calypso. a Joelma cantando com o bebezinho dela. tenho absoluta certeza que foi a música mais bonita que ela já cantou na vida. era o bebezinho dela cantando. tem muita lógica pra ela.
"eu olho para o meu antigo quarto. meu antigo quarto, de certa forma, era eu. eu não me reconheço no meu antigo quarto. logo, eu não sou mais quem eu era. então, quem sou..."
todas as lógicas são erradas. não entrem nessa de lógica.
jamais.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário