terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sobre cansaço

Começou aos 19 anos. Tinha acabado de sair do Ensino Médio e virei concursado público na Prefeitura de Curvelo. Com o fim da presença diária de uma sala que caminhou junta por mais de seis anos (interior é assim!), passei a ampliar meu convívio social, conhecer gente que não estava naquela salinha quadrada e nem no Padre Curvelo. Passei a conhecer músicos. Meninos pouco mais novos que eu, mas que empunhavam um instrumento com muita propriedade. Até banda tinham. O Dieguinho e sua guitarra, o Felipe Aguiar e seu baixo (ele é primo do PJ do Jota Quest, então entendam que alguns dons são de família). E tinha também o Lucas Porto. Ah, o Lucas Porto! Esse reunia muitos predicados em uma só pessoa. Talvez o cara mais famoso de Curvelo na minha época. Loiro, pinta de galã e baixista. Todos eles me mostraram musicas que, até então, não faziam parte do meu universo. Tinha muito mais água nesse oceano do que Zezé Di Camargo & Luciano e Roberto Carlos. Por causa de todo esse cenário, morando no interior e com cotação de mercado quase zero com as garotas, não deu outra: “Puta merda, eu preciso ser músico!” Logo nos meus primeiros salários, fui na melhor loja de instrumentos de Curvelo e comprei meu primeiro violão. Um Kashima. 119 reais. É claro que eu sabia que não era grandes coisas, mas sempre existe aquela máxima: “Compra um instrumento barato, porque se você não gostar disso, ao menos não torrou dinheiro demais.” Mas o Kashima tinha sua graça. Era pequenino, leve igual uma pluma, cordas de nylon e o braço ia afinando, o que, nas palavras dos meus capacitados amigos, ia me facilitar a vida por demais. Cheguei em casa com o Kashima, botei o MTV Unplugged do Nirvana no som, e é aquela coisa... “Vamos começar por 'Come As You Are!'" Que dó. Eu não posso negar que realmente tinha a pretensão de conseguir tirar “Come As You Are” de primeira e sem saber nenhum acorde e nenhuma nota. Era tão simples quando se assistia ao Kurt na televisão, por que raios eu não ia conseguir? E eu tentei, tentei, tentei. Tentei pra caramba. Saldo do primeiro dia: o sonho de ter uma banda de rock praticamente morreu. Mas quando a pessoa tem 19 anos, mora no interior, é cercada de amigos famosos e – principalmente! – não conhece nada além das fronteiras de sua terra natal, não há pra onde fugir. É sentar de novo e tentar “Come As You Are” de novo. E de novo. E de novo. Dia após dia. Até conseguir. E um dia eu consegui. Minha felicidade, porém, não foi maior que minha angústia. O tempo que eu levei pra tirar “Come As You Are” sem saber nenhum acorde e nenhuma nota foi muito grande. Gigante! Meus amigos famosos tirariam umas 100 músicas nesse tempo! Eles estavam há milhares de quilômetros na minha frente. Saldo da empreitada: o sonho de ter uma banda de ro... ah, que saco. Talvez você se pergunte por que diabos eu não fui atrás dos meus amigos famosos ou de um professor de música pra me ensinar o que eu precisava. A resposta é tão idiota quanto curta: porque eu achava que não precisava disso. Minha mãe e meus professores nunca souberam, mas eu “sofro” de impaciência pra aprender. Eu não tenho paciência pra aprender. Nem saco. Eu devia ter nascido sabendo tudo que um dia, porventura, eu precisasse. Deviam existir chips colados no meu cérebro, capazes de se ativarem no instante exato que eu precisasse de sua perícia. Eu sei que ninguém é assim. Mas devíamos todos ser. E hoje, com 27 anos, continuo pensando da mesma forma. Voltando à história... Diante daquele problema de demorar quase um século e meio pra tirar “Come As You Are”, eu só tinha uma saída: botar a culpa em alguém. E é claro que a culpa caiu sobre meu pobre Kashima. Meu Kashima, coitado, era muito ruim. Cordas muito altas, braço muito frágil, o som não era aquela belezura... Bosta de Kashima! E eu cansei pela primeira vez. A solução? Voltei à loja de instrumentos e comprei um violão novo. Mas, dessa vez, não era qualquer violão. Esse era super! Folk, cordas de aço, braço mais afinado que o Kashima, cor de madeira fosca, um arraso! Se fossem tempos de Jovem Guarda, posso dizer que tinha comprado a melhor brilhantina da cidade! Meu novo violão Lauren era lindíssimo! E mais: era idêntico ao violão que o Kurt usou no MTV Unplugged. Ou seja, “Come As You Are” ia sair numa facilidade absurda, talvez até sem a minha interferência. Cheguei em casa, botei o disco do Nirvana pra tocar e tentei “Come As You Are”. Eu não disse a vocês? “Come As You Are” saiu escorregando igual baba de quiabo! Fácil, mole, como se eu tivesse nascido sabendo! Dois minutos pra comemorar e bola pra frente, ainda tinha uma banda de rock pra montar. Próxima música: “About A Girl”. Tragédia. “About A Girl” não saiu de primeira. Nem de segunda. Saiu de trigésima quarta e olhe lá. Aí o desespero tomou conta, o bicho pegou. Passei a executar uma das tarefas mais difíceis da minha vida: Me convencer de que as coisas não são tão fáceis. E de que, talvez, eu não ia ter minha banda de rock e nem fazer sucesso com as garotas. E que eu estava ficando velho e precisava de uma faculdade. Não é o que os pais dizem? Só há futuro com educação? Pois é. Me cansei pela segunda vez. Me cansei profundamente do Lauren. E simulei uma paixão bem falsa pelo jornalismo. Os anos se passaram e a paixão pela música aumentou. Li demais sobre tudo relacionado a ela. Já trabalhava no estúdio de rádio, e passei a apreciar a parte sensorial das músicas. Gravações. Efeitos. Posicionamento de microfones para se adquirir um som específico. Mono e estéreo. Dança de instrumentos pelos fones de ouvido. Beatles. Stones. Centenas de bandas. Dezenas de instrumentos diferentes além dos meus famigerados Kashima e Lauren. Tudo isso. Passei anos me inteirando da parte teórica da música. Me tornei capaz de sentar numa roda de boteco e discutir sobre tudo isso. De Belo a ZZ-Top. Mole. Mas se me aparecesse um violão nessa roda... Ah, o peito doía. Mas a esperança sempre existe, nunca deixará de existir! Aquele bichinho verde sem vergonha nunca morre. Talvez seja a única coisa imortal nessa vida. E anos depois ela veio bater nesse coração aqui de novo. “Escuta aqui, peste, vou te dar mais uma chance. Se desperdiçar, te arranco o couro!” A esperança veio travestida na figura de Igor Rockford. Igor Rockford é o guitarrista dos Baratas Tontas, banda de renome pra quem curte psychobilly. Se você não conhece, é um desavisado. Trate de conhecer! Igor Rockford trabalha comigo na Assessoria da Emater e queria trocar de guitarra. 89 anos depois de empunhar uma Squier Fender Stratocaster de cor preta, ele queria realizar um sonho antigo: comprar um modelo Les Paul. E quem nesse mundo iria ser o novo protetor da Squier Fender Stratocaster? Eu. É claro que eu paguei pela guitarra. O mundo anda difícil e todo mundo precisa de grana. Mas havia ali algo sobrenatural. Aquela guitarra participou de festivais. Viveu tempos áureos na Obra e em outros vários lugares do Brasil. Aquela Squier Fender Stratocaster foi usada pra gravar o único disco dos Baratas Tontas. Ela frequentou um estúdio. Cada defeito em seu corpo (eram pouquíssimos!) tinha uma história. Não era uma guitarra qualquer! Era uma guitarra que apreciava ser tocada e precisava disso todo dia! Eu tinha em mãos uma verdadeira lenda viva! Pergunto a vocês: “Quem nesse mundo seria capaz de me parar com essa Squier Fender Stratocaster?” Pluguei a guitarra numa caixa Marshall de dar inveja a qualquer músico. De verdade. E como era bonito o som! Quente e respirava entre uma nota e outra. A guitarra respirava! Era viva! O braço delicado era de fácil deslizamento e as cordas pareciam ser feitas de fio dental. Inacreditável como era mais fácil fazer uma pestana na Squier Fender Stratocaster! Como todo começo de namoro, éramos, eu e ela, “só love”. Até, claro, a primeira discussão. Meu universo tinha se expandido. Eu não queria mais saber de tocar “About A Girl”, Deus me livre! Eu queria tocar Led Zeppelin! Beatles! Guns! Black Keys! Que Nirvana que nada... É óbvio que eu não consegui. E é óbvio que eu botei a culpa em alguém. Todo mundo sabe que uma guitarra não é uma “guitaaaaarra” se não tiver uns pedais. Distorções! Jimi Hendrixx! Isso era guitarra! “Como eu pude pensar que conseguiria tocar Led Zeppelin sem um pedal de distorção? Burrice demais!” E pra evitar qualquer problema, fui lá e comprei dois de uma vez. Um Overdrive e um Fuzz. Duas distorções das boas! Agora ia rolar! Tinha um padre em Curvelo chamado José Augusto que sempre dizia: “Qualquer pessoa pode tocar guitarra. Guitarra é distorção e distorção esconde os defeitos primários. Quem sabe tocar de verdade pega é um violão!” Naquele momento, eu já não tinha mais orgulho próprio nenhum. Eu não sabia tocar e estava louco pra desobedecer o padre José Augusto. Eu ia esconder meus defeitos atrás daqueles dois pedais de distorção sem a menor culpa. Só que eu já não era mais um garoto de 19 anos. Eu tinha lido pra caramba! E sabe o que ler pra caramba faz com a sua vida? Você deixa de acreditar nas mentiras que criou pra si. Em outras palavras, passei anos sabotando meu maior sonho. E conhecimento é igual andar de bicicleta: você nunca mais vai esquecer. E como doeu olhar para aquela lenda viva na minha mão e ter que dizer a ela que seu novo dono não ia conseguir tocá-la como o primeiro... Eu não sabia fazer aquilo. Depois de uma conversa bem pesada, aliviei os ânimos da Squier Fender Stratocaster prometendo a ela que, um dia, eu teria um filho. E esse, sim, ia com ela rumo ao sucesso. E me cansei da Squier Fender Stratocaster. Hoje, dois anos depois, ainda queimo o restinho de esperança (lembra dela?) que ainda vive em mim. Sou dono de um baixo. Mas não é qualquer baixo! É um Squier Fender Precision Bass! Lindo! Soberano, imponente! Que os outros instrumentos não me escutem, mas é a coisa mais linda que já toquei na vida. Sunbusrt, escudo preto, braço fininho... Uma verdadeira obra de arte! E todo dia eu pego nele um pouquinho. E tento de verdade tocá-lo. Não com aquela inocência dos 19 anos e nem com a euforia dos 25. Meu Squier Fender Precision Bass não é uma lenda viva e não tem a reputação da Squier Fender Stratocaster. Se um dia ele for uma lenda, terá de ser pelas minhas próprias mãos. Porque, apesar de todo o cansaço que senti com meus antigos instrumentos, todos eles ainda estão comigo. Todos eles. O Kashima fica aqui em casa (e em breve vai para as mãos de Letícia, que decidiu “brincar” um pouquinho...). O Lauren, a Squier Fender Stratocaster e o Squier Fender Precision Bass ficam comigo lá na Emater. Vivem constantemente debaixo das minhas vistas. Porque eu os amo. Eu amo todos os meus instrumentos. Eles fazem parte de mim e sempre vão fazer. Se não em cima de um palco, como eu idealizei há oito anos, ao menos na vida. E só tem uma coisa tão grande quanto o meu amor por eles. O meu cansaço. Tem dias que sento diante dos três na rádio e passo minutos e minutos contemplando. Eu queria tanto tocá-los como um verdadeiro e feliz astro de rock... Mas como, se eles não me ajudam? Como, se eles me cansam? Eles me cansam! Mas cansaço não é falta de amor. Cansaço é cansaço. Não tem nada a ver com amor. Foi então que decidi amá-los à distância. E, acreditem, é amor pra sempre. Mesmo que mude. Mas o baixo ainda não. O Squier Fender Precision Bass ainda será uma lenda! E se der tudo errado de novo, e se ainda existir gotas de esperança, tem a bateria, o banjo, o ukulele, o violão de 12 cordas e a viola caipira. Ainda me restam cinco tentativas! Tem a cítara também, mas uma cítara é demais. Cítaras são as top models dos instrumentos. E eu nunca me imaginei ao lado de uma top model. E, se ainda eu falhar, prometo por Deus sossegar de vez. Monto um estúdio, coloco todo mundo lá dentro e pronto. Vocês devem estar pensando: “Como você é idiota! Não percebe que todos eles são iguais? São todos iguais! Todos eles tem as mesmas cordas, o mesmo corpo, o mesmo braço. Uns pequenos, outros grandes. Uns bonitos, outros nem tanto. Uns mais simples, outros mais complexos... Mas são todos iguais. Iguais!” Eu sei disso tudo. Sou um jornalista formado que leu sobre música mais que sobre sua faculdade, poxa vida. Mas eu preciso acreditar. Entende? Eu preciso acreditar. Mas jamais me lembrem disso novamente. Só de lembrar, me dá cansaço.

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