terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Abstinência
Era o ducentésimo quadragésimo sexto dia.
- Vontade de fumar.
- Eu também.
- Quanto tempo?
- Uns cem dias, eu acho. Você?
- Duzentos e quarenta e seis.
- Meu Deus! Que glória!
- Pois é.
- E ainda dá vontade?
- Sempre dá vontade.
- Eu posso dizer que tou no cem e tou aqui, morrendo de vontade.
- Tem hora que dá calafrio.
- Calafrio no dia duzentos e quarenta e seis? Obrigada por me animar.
- Calafrio e coisas que cê nem imagina.
- Acho que vou desistir.
- Sério?
- Sério. A melhor forma de fugir de uma tentação é entregar-se a ela.
- Bonito isso.
- É, li um dia desses. Vamos?
- Vamos o quê?
- O quê, meu Deus! Fumar!
- Cê tá me chamando pra fumar.
- Tou.
- Cê tá me chamando mesmo pra fumar?
- Tou.
- Isso não se faz, deixa eu te dizer. Cê tá me tentando.
- Tou nada. Eu tenho um cigarro aqui, mas não tenho isqueiro.
- Eu tenho isqueiro!
- Funciona?
- Funciona!
- Muito fogo?
- Tem duzentos e quarenta e seis dias que não uso. Tá lindo de bom!
- Eu fumo metade do cigarro. Você fuma a outra. E ficamos felizes juntos.
- Tá bom! Tá bom!
- Tá bom?
- Tá bom!
- Cadê o isqueiro?
- Pronto. Aceso. Olha o tamanho da chama!
- Olha o tamanho do meu cigarro! A abstinência não faz ele ficar maior?
- Se faz!
- Então me diz.
- Ai meu Deus! Diz o quê?
- Diz que você quer fumar o meu cigarro.
- Pra quê?
- Você diz e fuma meu cigarro. Você não diz e não fuma meu cigarro.
- Caralho.
- Ok, tou guardando na bolsa.
- EU QUERO! Eu quero muito! Me deixa fumar o seu cigarro com meu isqueiro!
- Ok. Mas outra hora.
- ...
- É. Passou a vontade.
- ...
- Um amigo meu sempre me diz que conversar demais sobre um vício te faz perder a vontade.
- ...
- Perdi a vontade. Tudo bem pra você?
- ...
- Nos vemos pelo corredor, fofo!
Era o ducentésimo quadragésimo sexto dia.
E contando.
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