terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Eu nunca fui aluno da dona Ester
Pois é. A grande peça que o destino me pregou talvez seja essa. Eu nunca fui aluno da dona Ester.
Dona Ester nasceu Maria Ester de Souza. Filha de Lourival de Souza e Maria Gomes. A quarta de 10 irmãos. Formada em magistério e professora de português do Ensino Fundamental. Deu aula por 32 (ou 33) anos ininterruptos na Escola Estadual “Interventor Alcides Lins”. Brava. Exigente. Séria. Ensinou a centenas de curvelanos as dores e as delícias da língua portuguesa. Casada. Mãe de dois filhos.
Um deles, por acaso, eu.
Desde que pus o pé na escolinha, aos dois anos de idade, sabia que seria quase inevitável ser aluno de dona Ester. Curvelo é uma cidade pequena, não tinha muito pra onde fugir. Fora o fato que dona Ester é defensora feroz da qualidade do ensino público. Não deu outra. Na primeira série, fui parar bem no colégio em que ela já era quase uma lenda. O destino ia se cumprir em poucos anos, não tinha jeito.
E os meus amigos não deixavam por menos. Colocavam o terror sempre que uma oportunidade surgia. “Você é filho da dona Ester? Ih, já parou pra pensar que vai ser aluno dela? Sabia que ela é muito brava? Você tá perdido!” Uma tremenda covardia fazer um menino de sete anos tomar pavor da própria mãe.
Primeira série, segunda série, terceira, quarta... O Ensino Fundamental estava batendo na porta e a profecia estava pronta pra ser lavrada. Foi quando eu, aos 11 anos de idade, tomei as rédeas do meu destino. Passei na prova de seleção de uma escola particular: o Colégio Padre Curvelo. Saí completamente da rota de colisão com dona Ester. E o destino, como presente, me entregou Júlia como nova professora de português.
Julia nasceu Maria Júlia Miranda. Na época, professora de português no Alcides Lins e Padre Curvelo. Uma irmã de vida e profissão de dona Ester. Mãe de Amanda, Carla, Camila e Gustavo, o primeiro melhor amigo que tive na vida. Praticamente minha segunda mãe.
Júlia me deu aula de português e redação da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio (com exceção apenas do 1º ano). Mamãe deve ter ficado feliz, visto que o que eu fizesse de errado na sala de aula, ela saberia quase em tempo real. A base do meu português, portanto, se deve muito ao carinho de Júlia. Nas férias escolares, eu ia em sua casa e buscava uns 10 livros infanto-juvenis para me divertir nas horas folgas. Ela tinha todas as novidades possíveis! Todos os lançamentos! A casa da Júlia era como um parque de diversões pra mim. Júlia acompanhou meus primeiros textos, minhas primeiras dissertações, minhas primeiras interpretações de texto. Eu ganhei minha primeira gramática (só minha, porque mamãe tinha umas duzentas) por causa dela. Eu tenho muito da Júlia em mim.
Acabou o terceiro ano. Formatura, choradeiras e... futuro! “O que você quer para o futuro, Rafael?” Depois de uma leve inclinação para a Biologia e uma tentativa frustrada na Publicidade, resolvi escrever. E aqui paira outra lenda: a de que não haveria outro caminho pra mim, sendo filho de uma professora de português e gostando tanto de ler e escrever. Vai saber... Eu quero mesmo é ser jornalista!
A faculdade foi um choque. Porque você não tem tanto tempo para desenvolver laços afetivos com todos os professores. A rotatividade é intensa! Cinco mestres novos a cada seis meses. Um absurdo. Não haveria outra Júlia para me mimar e muito menos pra contar a dona Ester em tempo real meus deslizes na sala de aula. Estava sozinho e desamparado, agora. Saí do quentinho interior mineiro para a vida. Muitas vezes dura, outras vezes cruel, de vez em quando doce. Vida.
Dos mais de trinta professores que tive na faculdade de Jornalismo, por muita sorte, levarei alguns eternamente comigo. Eles cumpriram sua missão de forma fantástica, substituíram a Júlia (e, secretamente, dona Ester) de forma excepcional. Me bateram quando tinham que bater, me elogiaram quando tinham que elogiar, me deram 77 em 100 quando tinham que dar (pois é, minha primeira nota em português abaixo de 80% foi na faculdade). Me ensinaram.
Abel, o ursinho carinhoso travestido de malvado. Ana Rosa, que misturou língua portuguesa e charme na minha cabeça. Leo, um modelo do que pretendo ser um dia (escritor). Fabrício Marques (ou Brandon Flowers), o cara que me deu um jornal raro de presente ao fim da sua matéria. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Edmundo, dono da melhor interpretação de um texto do Nelson Rodrigues que presenciarei na vida. Wanir Campelo, responsável por minha completa desconstrução e responsável por eu decidir que o Jornalismo seria minha profissão. Ângela Moura, a doce voz e doce alma do rádio. Gisa Campos, a destruidora de timidez frente às câmeras. Luiz Henrique, o sábio descolado que deu uma nota boa até demais na minha monografia sobre a Fresno. Murilo, o risonho jornalista científico. JJ, o espírito vivo da paixão de ser jornalista. Lorena Tárcia (ou Clarice Falcão), a pessoa que mais faz coisas ao mesmo tempo que já vi na vida. Multimídia de corpo, alma e coração.
Fernanda Agostinho, minha paixãozinha da faculdade e escritora de lindos e-mails.
Érika Savernini, a paciência em pessoa e dona de um pedacinho do meu coração.
Maurício Guilherme, meu mestre. Meu amigo, meu irmão. Compartilhou de minha alma nos últimos seis meses de faculdade, meu orientador de monografia. Me deu a mão até a porta de saída, me entregou o diploma na colação. E me ensinou a usar a vírgula.
Tantos mestres, tantas lições, tanta entrega... E eu não fui aluno da dona Ester.
O que eu sempre ouvi é que esse destino nunca se cumpriria. Eu jamais sentaria numa cadeira da sala de dona Ester. Porque ela não queria. Ela não ia permitir. Deve ser muito duro pra uma mãe ter o filho como aluno. E na hora de corrigir as provas? E se eu tirasse total? Ela poderia me elogiar em sala de aula? Ela seria capaz de me colocar pra fora da sala de aula? Ela seria capaz de me ver chorando pela menina que não me deu bola sem sentir nada?
Se é difícil ser mãe de aluno, imagine ser professora de um filho.
E, assim, eu não fui aluno de dona Ester. Ou, pelo menos, não numa sala de aula. Porque na vida... Ah, na vida...
As primeiras palavras, os livros da Série Vagalume, os cadernos de caligrafia, as noites em claro preocupada com minha tensão nas provas finais, os tênis e uniformes novos, as orações pra que desse tudo certo, os puxões de orelha pelas notas medianas, os abraços nos momentos de vitória, o choro nos de alegria, a vigilância em me acompanhar pela faculdade, mesmo estando a 170km de distância.
Eu fui aluno de dona Ester de uma forma tão especial que nenhum dos outros mais de cem foram.
A dona Ester, a professora Ester, é minha MÃE.
A todos os mestres aqui citados (e a todos aqueles de quem esqueci, mas fazem parte do que sou hoje), uma maçã do amor na mesa de cada um.
E duas na mesa de dona Ester.
Sobre cansaço
Começou aos 19 anos. Tinha acabado de sair do Ensino Médio e virei concursado público na Prefeitura de Curvelo. Com o fim da presença diária de uma sala que caminhou junta por mais de seis anos (interior é assim!), passei a ampliar meu convívio social, conhecer gente que não estava naquela salinha quadrada e nem no Padre Curvelo. Passei a conhecer músicos. Meninos pouco mais novos que eu, mas que empunhavam um instrumento com muita propriedade. Até banda tinham. O Dieguinho e sua guitarra, o Felipe Aguiar e seu baixo (ele é primo do PJ do Jota Quest, então entendam que alguns dons são de família). E tinha também o Lucas Porto. Ah, o Lucas Porto! Esse reunia muitos predicados em uma só pessoa. Talvez o cara mais famoso de Curvelo na minha época. Loiro, pinta de galã e baixista. Todos eles me mostraram musicas que, até então, não faziam parte do meu universo. Tinha muito mais água nesse oceano do que Zezé Di Camargo & Luciano e Roberto Carlos. Por causa de todo esse cenário, morando no interior e com cotação de mercado quase zero com as garotas, não deu outra: “Puta merda, eu preciso ser músico!”
Logo nos meus primeiros salários, fui na melhor loja de instrumentos de Curvelo e comprei meu primeiro violão. Um Kashima. 119 reais. É claro que eu sabia que não era grandes coisas, mas sempre existe aquela máxima: “Compra um instrumento barato, porque se você não gostar disso, ao menos não torrou dinheiro demais.” Mas o Kashima tinha sua graça. Era pequenino, leve igual uma pluma, cordas de nylon e o braço ia afinando, o que, nas palavras dos meus capacitados amigos, ia me facilitar a vida por demais. Cheguei em casa com o Kashima, botei o MTV Unplugged do Nirvana no som, e é aquela coisa... “Vamos começar por 'Come As You Are!'"
Que dó.
Eu não posso negar que realmente tinha a pretensão de conseguir tirar “Come As You Are” de primeira e sem saber nenhum acorde e nenhuma nota. Era tão simples quando se assistia ao Kurt na televisão, por que raios eu não ia conseguir? E eu tentei, tentei, tentei. Tentei pra caramba. Saldo do primeiro dia: o sonho de ter uma banda de rock praticamente morreu. Mas quando a pessoa tem 19 anos, mora no interior, é cercada de amigos famosos e – principalmente! – não conhece nada além das fronteiras de sua terra natal, não há pra onde fugir. É sentar de novo e tentar “Come As You Are” de novo. E de novo. E de novo. Dia após dia. Até conseguir.
E um dia eu consegui.
Minha felicidade, porém, não foi maior que minha angústia. O tempo que eu levei pra tirar “Come As You Are” sem saber nenhum acorde e nenhuma nota foi muito grande. Gigante! Meus amigos famosos tirariam umas 100 músicas nesse tempo! Eles estavam há milhares de quilômetros na minha frente. Saldo da empreitada: o sonho de ter uma banda de ro... ah, que saco.
Talvez você se pergunte por que diabos eu não fui atrás dos meus amigos famosos ou de um professor de música pra me ensinar o que eu precisava. A resposta é tão idiota quanto curta: porque eu achava que não precisava disso. Minha mãe e meus professores nunca souberam, mas eu “sofro” de impaciência pra aprender. Eu não tenho paciência pra aprender. Nem saco. Eu devia ter nascido sabendo tudo que um dia, porventura, eu precisasse. Deviam existir chips colados no meu cérebro, capazes de se ativarem no instante exato que eu precisasse de sua perícia. Eu sei que ninguém é assim. Mas devíamos todos ser. E hoje, com 27 anos, continuo pensando da mesma forma.
Voltando à história... Diante daquele problema de demorar quase um século e meio pra tirar “Come As You Are”, eu só tinha uma saída: botar a culpa em alguém. E é claro que a culpa caiu sobre meu pobre Kashima. Meu Kashima, coitado, era muito ruim. Cordas muito altas, braço muito frágil, o som não era aquela belezura... Bosta de Kashima! E eu cansei pela primeira vez.
A solução? Voltei à loja de instrumentos e comprei um violão novo. Mas, dessa vez, não era qualquer violão. Esse era super! Folk, cordas de aço, braço mais afinado que o Kashima, cor de madeira fosca, um arraso! Se fossem tempos de Jovem Guarda, posso dizer que tinha comprado a melhor brilhantina da cidade! Meu novo violão Lauren era lindíssimo! E mais: era idêntico ao violão que o Kurt usou no MTV Unplugged. Ou seja, “Come As You Are” ia sair numa facilidade absurda, talvez até sem a minha interferência. Cheguei em casa, botei o disco do Nirvana pra tocar e tentei “Come As You Are”.
Eu não disse a vocês?
“Come As You Are” saiu escorregando igual baba de quiabo! Fácil, mole, como se eu tivesse nascido sabendo! Dois minutos pra comemorar e bola pra frente, ainda tinha uma banda de rock pra montar. Próxima música: “About A Girl”.
Tragédia.
“About A Girl” não saiu de primeira. Nem de segunda. Saiu de trigésima quarta e olhe lá. Aí o desespero tomou conta, o bicho pegou. Passei a executar uma das tarefas mais difíceis da minha vida: Me convencer de que as coisas não são tão fáceis. E de que, talvez, eu não ia ter minha banda de rock e nem fazer sucesso com as garotas. E que eu estava ficando velho e precisava de uma faculdade. Não é o que os pais dizem? Só há futuro com educação? Pois é. Me cansei pela segunda vez. Me cansei profundamente do Lauren. E simulei uma paixão bem falsa pelo jornalismo.
Os anos se passaram e a paixão pela música aumentou. Li demais sobre tudo relacionado a ela. Já trabalhava no estúdio de rádio, e passei a apreciar a parte sensorial das músicas. Gravações. Efeitos. Posicionamento de microfones para se adquirir um som específico. Mono e estéreo. Dança de instrumentos pelos fones de ouvido. Beatles. Stones. Centenas de bandas. Dezenas de instrumentos diferentes além dos meus famigerados Kashima e Lauren. Tudo isso. Passei anos me inteirando da parte teórica da música. Me tornei capaz de sentar numa roda de boteco e discutir sobre tudo isso. De Belo a ZZ-Top. Mole. Mas se me aparecesse um violão nessa roda... Ah, o peito doía.
Mas a esperança sempre existe, nunca deixará de existir! Aquele bichinho verde sem vergonha nunca morre. Talvez seja a única coisa imortal nessa vida. E anos depois ela veio bater nesse coração aqui de novo. “Escuta aqui, peste, vou te dar mais uma chance. Se desperdiçar, te arranco o couro!”
A esperança veio travestida na figura de Igor Rockford. Igor Rockford é o guitarrista dos Baratas Tontas, banda de renome pra quem curte psychobilly. Se você não conhece, é um desavisado. Trate de conhecer! Igor Rockford trabalha comigo na Assessoria da Emater e queria trocar de guitarra. 89 anos depois de empunhar uma Squier Fender Stratocaster de cor preta, ele queria realizar um sonho antigo: comprar um modelo Les Paul. E quem nesse mundo iria ser o novo protetor da Squier Fender Stratocaster?
Eu.
É claro que eu paguei pela guitarra. O mundo anda difícil e todo mundo precisa de grana. Mas havia ali algo sobrenatural. Aquela guitarra participou de festivais. Viveu tempos áureos na Obra e em outros vários lugares do Brasil. Aquela Squier Fender Stratocaster foi usada pra gravar o único disco dos Baratas Tontas. Ela frequentou um estúdio. Cada defeito em seu corpo (eram pouquíssimos!) tinha uma história. Não era uma guitarra qualquer! Era uma guitarra que apreciava ser tocada e precisava disso todo dia! Eu tinha em mãos uma verdadeira lenda viva! Pergunto a vocês: “Quem nesse mundo seria capaz de me parar com essa Squier Fender Stratocaster?”
Pluguei a guitarra numa caixa Marshall de dar inveja a qualquer músico. De verdade. E como era bonito o som! Quente e respirava entre uma nota e outra. A guitarra respirava! Era viva! O braço delicado era de fácil deslizamento e as cordas pareciam ser feitas de fio dental. Inacreditável como era mais fácil fazer uma pestana na Squier Fender Stratocaster!
Como todo começo de namoro, éramos, eu e ela, “só love”. Até, claro, a primeira discussão. Meu universo tinha se expandido. Eu não queria mais saber de tocar “About A Girl”, Deus me livre! Eu queria tocar Led Zeppelin! Beatles! Guns! Black Keys! Que Nirvana que nada...
É óbvio que eu não consegui. E é óbvio que eu botei a culpa em alguém.
Todo mundo sabe que uma guitarra não é uma “guitaaaaarra” se não tiver uns pedais. Distorções! Jimi Hendrixx! Isso era guitarra! “Como eu pude pensar que conseguiria tocar Led Zeppelin sem um pedal de distorção? Burrice demais!” E pra evitar qualquer problema, fui lá e comprei dois de uma vez. Um Overdrive e um Fuzz. Duas distorções das boas! Agora ia rolar! Tinha um padre em Curvelo chamado José Augusto que sempre dizia: “Qualquer pessoa pode tocar guitarra. Guitarra é distorção e distorção esconde os defeitos primários. Quem sabe tocar de verdade pega é um violão!” Naquele momento, eu já não tinha mais orgulho próprio nenhum. Eu não sabia tocar e estava louco pra desobedecer o padre José Augusto. Eu ia esconder meus defeitos atrás daqueles dois pedais de distorção sem a menor culpa.
Só que eu já não era mais um garoto de 19 anos. Eu tinha lido pra caramba! E sabe o que ler pra caramba faz com a sua vida? Você deixa de acreditar nas mentiras que criou pra si. Em outras palavras, passei anos sabotando meu maior sonho. E conhecimento é igual andar de bicicleta: você nunca mais vai esquecer. E como doeu olhar para aquela lenda viva na minha mão e ter que dizer a ela que seu novo dono não ia conseguir tocá-la como o primeiro... Eu não sabia fazer aquilo. Depois de uma conversa bem pesada, aliviei os ânimos da Squier Fender Stratocaster prometendo a ela que, um dia, eu teria um filho. E esse, sim, ia com ela rumo ao sucesso.
E me cansei da Squier Fender Stratocaster.
Hoje, dois anos depois, ainda queimo o restinho de esperança (lembra dela?) que ainda vive em mim. Sou dono de um baixo. Mas não é qualquer baixo! É um Squier Fender Precision Bass! Lindo! Soberano, imponente! Que os outros instrumentos não me escutem, mas é a coisa mais linda que já toquei na vida. Sunbusrt, escudo preto, braço fininho... Uma verdadeira obra de arte! E todo dia eu pego nele um pouquinho. E tento de verdade tocá-lo. Não com aquela inocência dos 19 anos e nem com a euforia dos 25. Meu Squier Fender Precision Bass não é uma lenda viva e não tem a reputação da Squier Fender Stratocaster. Se um dia ele for uma lenda, terá de ser pelas minhas próprias mãos.
Porque, apesar de todo o cansaço que senti com meus antigos instrumentos, todos eles ainda estão comigo. Todos eles. O Kashima fica aqui em casa (e em breve vai para as mãos de Letícia, que decidiu “brincar” um pouquinho...). O Lauren, a Squier Fender Stratocaster e o Squier Fender Precision Bass ficam comigo lá na Emater. Vivem constantemente debaixo das minhas vistas. Porque eu os amo. Eu amo todos os meus instrumentos. Eles fazem parte de mim e sempre vão fazer. Se não em cima de um palco, como eu idealizei há oito anos, ao menos na vida.
E só tem uma coisa tão grande quanto o meu amor por eles. O meu cansaço. Tem dias que sento diante dos três na rádio e passo minutos e minutos contemplando. Eu queria tanto tocá-los como um verdadeiro e feliz astro de rock... Mas como, se eles não me ajudam? Como, se eles me cansam? Eles me cansam! Mas cansaço não é falta de amor. Cansaço é cansaço. Não tem nada a ver com amor.
Foi então que decidi amá-los à distância. E, acreditem, é amor pra sempre. Mesmo que mude.
Mas o baixo ainda não. O Squier Fender Precision Bass ainda será uma lenda!
E se der tudo errado de novo, e se ainda existir gotas de esperança, tem a bateria, o banjo, o ukulele, o violão de 12 cordas e a viola caipira. Ainda me restam cinco tentativas! Tem a cítara também, mas uma cítara é demais. Cítaras são as top models dos instrumentos. E eu nunca me imaginei ao lado de uma top model.
E, se ainda eu falhar, prometo por Deus sossegar de vez. Monto um estúdio, coloco todo mundo lá dentro e pronto.
Vocês devem estar pensando: “Como você é idiota! Não percebe que todos eles são iguais? São todos iguais! Todos eles tem as mesmas cordas, o mesmo corpo, o mesmo braço. Uns pequenos, outros grandes. Uns bonitos, outros nem tanto. Uns mais simples, outros mais complexos... Mas são todos iguais. Iguais!”
Eu sei disso tudo. Sou um jornalista formado que leu sobre música mais que sobre sua faculdade, poxa vida. Mas eu preciso acreditar. Entende? Eu preciso acreditar.
Mas jamais me lembrem disso novamente.
Só de lembrar, me dá cansaço.
Olimpíadas de Flerte (Trecho 2)
Modalidade: Sentido-Perfume-Aranha
Duas certezas na vida além da morte: Deus não te tira uma coisa sem dar outra em troca. E todo menino que se preze sempre quis ter superpoderes.
Ela resolveu sentar na poltrona ao lado da dele naquele dia. Nunca tinha feito isso antes. Até aí tudo bem. Ele, como sempre, com seus fones entalados no ouvido e olhando imóvel para o lado de fora da janela. E respirando o perfume dela. Ele sabia precisamente onde ela estava sem precisar olhar. O olfato lhe bastava. Era um cheiro bom.
A viagem começa, prossegue e chega a seus momentos finais e nada dele girar a cabeça para o lado. Seus olhos cada vez mais perdidos no nada daquela paisagem urbana.
Foi quando seu olfato se mexeu.
Sem fazer um movimento sequer, ele percebeu que o cheiro do perfume dela havia mudado. “Que estranho. Aí vem coisa...”
E realmente veio. Inacreditável como o perfume é capaz de reagir às sensações de um corpo.
Quando ela desceu do ônibus, ele voltou seus olhos para a direção de outrora e comemorou. Ele tinha a capacidade de prever a ação de uma mulher pela mudança do cheiro do seu perfume, mesmo fumando seus três cigarros de palha diários.
“Quer dizer que se eu esquecer o foco e me “cegar”, eu posso prever o perigo vindo do sexo oposto? Como Perseu e a Medusa?”
E nascia ali, naquele momento, um novo super-herói.
Todo menino que se preze sempre quis ter superpoderes: Ok, demorou 26 anos pra aparecer um, mas... quem se importa? Ele tinha um superpoder!
Deus não te tira uma coisa sem dar outra em troca: Ele percorreu todo o caminho pra casa agradecendo – de forma inédita! – por Ele tê-lo feito tão tímido.
Detona Soal
Se meu tio ler esse texto, vai falar de cara: "Puta merda, lá vem você comparar amor com jogo de novo. É por isso que nunca dá certo." Mas hoje é Dia do Orgulho Nerd e vou aproveitar a data. Esse texto não é sobre videogames. É sobre amor.
Vamos supor que a vida seja assim, uma sala cheia de jogos de fliperama. E que eu seja uma dessas máquinas, colocadas em algum canto escuro dessa sala. E vamos supor que meu coração seja o jogo "Detona Ralph". Ficaríamos assim:
Ralph: você
O "novo" Ralph: ela
Félix: eu
o prédio: meu coração
E só.
"Mas você é o Félix?" Sim, sou. Burrice, né? Mas, sim, eu sou o Félix. Fico aqui nessa labuta, todo santo dia tentando consertar os estragos que esses Ralphs que tentam te substituir fazem. É um saco. Eu não quero que eles destruam esse prédio. Porque esse prédio é seu. E tem meses (veja bem, meses!!) que eu estou aqui nessa função ingrata sem ter tempo nem pra comer. Toda hora sobe um lá em cima e começa a quebrar ele todinho. E eu fico lá, reparando cada rachadura que ele consegue fazer. Alguns já conseguiram grandes progressos. Mas meu martelinho de ouro é foda. Muito foda. Sempre consigo terminar a tempo de eu ficar com aquela carinha de apaixonado.
Tem sete meses que eu não me apaixono. Eu. Sete meses esperando você, o verdadeiro Ralph dessa máquina, voltar. Mas você não volta. Não me manda postais, nada. Sete meses!
Entenda isso como um recado. Sei lá, entenda isso como quiser:
Chegou um Ralph novo aqui em cima, e ele é bom. Bom demais. E eu estou com muito medo de ele conseguir passar de fase.
Volta logo, pelo amor de Deus.
Alta Fidelidade
Eu acho que te vi quase agora na rua. Na verdade, posso afirmar com (quase) total certeza que era você. Ali, no miolinho da Savassi. Fui na Leitura comprar o filme “Alta Fidelidade”. Desci do SC02, andei um pouquinho, virei a esquina e pronto! Receita rápida e fácil pra dar de cara com você, sentada naquela lanchonete da esquina em frente a Araújo. Se você não emagreceu demais (e espero que não!), era você mesmo! Cabelo meio loiro, pele branca, aquela coisinha de pano que as mulheres gostam de usar para cobrir os braços... você!
É nessas horas que me percebo esperto. Em questão de três ou quatro segundos, vivi o susto, o medo, a vergonha, a timidez, a covardia e, por fim, a recuperação. Segui meus passos, passei bem ao lado e parei na frente do sinal que, óbvio, brilhava em vermelho. Estava tocando Band of Horses no iPod. Sempre lembro de você quando escuto Band of Horses. Foi o show mais bonito que vi na vida e você estava comigo.
E, agora, você aparentemente ali, bem atrás de mim.
“Não olha pra trás! Olha o seu estado! Olha o tamanho do seu cabelo! Você vai começar a suar e gaguejar... Não olha pra trás!”
Por isso não acredito muito em aparências. Visulamente eu estava ótimo. Batendo pezinho no ritmo da música, olhando despercebido para a frente, olhar sério. Por dentro... Ah, por dentro! O caos.
Se era você mesmo, tenho que dizer que estou muito chateado. Você podia ter me chamado. Ia fingir de bobo, esperar pelo meu nome pela segunda vez e olhar para a mesa com cara de paisagem. Mas você não me chamou. Fui para a Leitura - chateado! - atrás do “Alta Fidelidade”.
Na volta, uns dez minutos depois, voltei pelo mesmo lugar com os ouvidos abertos e prontos pra escutar qualquer movimento a léguas de distância. Desci bem devagarinho a rua, olhando sempre em direção à lanchonete. E, quando eu estava para virar a rua e pegar o SC01, não deu outra. Eis que você vem caminhando em minha direção junto com sua amiga. Meu Deus, certeza que era você. Você estava usando uma saia preta, com as pernocas de fora. Você adora andar com as pernocas de fora! E você começou a rir do jeito que você ri! E você levou a mão direita até a testa, um movimento tão seu... Você sempre fazia isso quando estava sem graça! Meu Deus, em poucos minutos eu estaria de frente para você! Comecei a tremer, a suar frio, a perder o jogo do raciocínio. Tinha pouquíssimos segundos para tentar alguma coisa com o pouco de racionalidade que tinha me sobrado. Tive que fazer o que eu sei de melhor.
Como se nada estivesse acontecendo e como se aquele momento não fosse o que eu mais desejo em meses, eu quebrei o pescoço pra esquerda, aumentei o volume do iPod no máximo e fui em direção ao ponto de ônibus. Assim. Simples. Prático. Eficiente. E muito, mas muito idiota.
O ônibus demorou a chegar e esse tempo me consumiu por completo. Fiquei pensando na sua mão levada à testa, no seu sorriso, nas suas pernocas de fora... E me deu um rompante de virar para trás e ir de encontro a você! Era o que eu devia ter feito desde o começo! Mas, quando virei... cadê você e sua amiga? Cadê? Como assim você desapareceu tão rápido! Passaram-se apenas uns cinco minutos e você já tinha partido! Oh, meu Deus...
E agora estou aqui, pensando. Eu mudei tanto por dentro e continuo o mesmo covarde por fora. E você continua a mesma! O mesmo sorriso, a mesma beleza, as mesmas pernocas de fora...
O pior de tudo é saber que, sendo você ou não, o produto final dessa terrível equação amorosa não muda.
Tudo continua do mesmo jeito.
Miragem. Em alta fidelidade.
"- Pra começar, eu sou leão."
Toca é um lugar legal. É um lugar quentinho, é um lugar só seu. No meu caso, sem nenhum semelhante. Sem nenhum espelho, também. Sou eu e só. Não vou dizer que é ruim, tampouco vou dizer que é bom. Mas esse fim de semana, especificamente, minha toca estava um saco. Porque quando a toca fica um saco você começa a pensar demais. E pensar demais é uma das maiores tolices que já vi na vida. Não sai muita coisa boa. E quando não existe outro de sua espécie para compartilhar seus pensamentos, então...
O fato é que esse fim de semana minha toca estava um saco a ponto de eu começar a me perguntar “Não existe nesse mundo outro espécime como eu? Aliás, que espécime mesmo eu sou?”
De tanto pensara barriga roncou. É um fato: qualquer que seja a sua espécie, você vai sair da toca pra procurar alimento. Assim sendo, fui pra padaria comprar pão. “Sou de uma espécie que gosta de pão. Já é algum indício...”
Cheguei à padaria escolhi os dez pães mais branquinhos que achei, passei a mão em duas cartelas de salame (“Sou de uma espécie que gosta de carne. Hum...”) e corri para o caixa. Duas pessoas na minha frente. À primeira vista, longe de serem da minha espécie. Não se parecem nada comigo.
Depois que a primeira foi atendida e a segunda movimentou pra frente, uma turma entrou no meu campo de visão. Estavam comendo pizza. “Interessante, eu também gosto de pizza...” O grupo era composto de uma garota morena. Bem bonita, até. Na sua frente, um cara branquelo vestindo um moletom surrado. E, do lado dos dois, dois outros caras. Ou melhor: dois outros caras muito parecidos comigo. Tinham cabelos crespos tão grandes quanto o meu, mas estavam soltos Duas majestosas jubas ganhando o céu da padaria. O meu é uma bela juba, mas estava amarrado em um suntuoso coque no topo da cabeça. Há séculos não os deixo soltos. Na verdade, achei até engraçado esses dois terem essa liberdade. Nenhuma das espécies com quem convivo aprova meus cabelos soltos. Mas aqueles dois... Era quase natural estar com eles assim.
Quando a senhora na minha frente terminou de pagar a conta e eu me direcionei ao caixa, aconteceu o inverso: eu havia entrado no campo de visão desse "bando". (Anos de toca te ensinam a observar completamente um ambiente desconhecido sem que percebam que você o está fazendo). Então, sem que me percebessem, vi um cabeludo dar um tapa na mão do outro cabeludo e apontar sorrateiramente o dedo pra mim. Já esse cabeludo cutucou o casal do lado e fez o mesmo. Em questão de segundos, oito olhos estavam colados em todos os meus movimentos.
Achei estranhíssimo. Comecei a reparar nas minhas vestes. Pulseiras no braço, camiseta justa por baixo de uma jaqueta preta, calças largas, chinelo, braguilha fechada. Tudo certo. Mas, ainda assim, os quatro continuavam a me esgueirar Fiz uma cara de mau (sou bom nisso!), paguei a conta, peguei a sacola e segui adiante.
Na volta pra toca, fiquei me perguntando o porquê do bando me olhar tanto. “Será que eu nasci perto deles e, por algum terrível acaso, fui desgarrado quando pequeno e nunca mais voltei? Talvez, poxa vida! Dois deles são tão parecidos comigo...”
E deu uma vontade louca e repentina de voltar. Dar meia volta e me aproximar daqueles quatro. Quem sabe até sentar na mesma mesa e, humildemente, perguntar:
- Olá, meu nome é Rafael. Estou muito tempo trancado lá na minha toca, e lá não tem espelho nem outro semelhante, e acabei me esquecendo de muita coisa. Vocês dois, em especial, são muito parecidos comigo. Então, pra começar... Vocês podem me dizer qual é a espécie de vocês?
É claro que eu não voltei. Minha espécie sofre de uma timidez terrível e aguda.
Mas uma coisa, ao menos, eu me prometi: amanhã mesmo comprarei espelhos.
Os espólios de tio Preto, parte 2 - Thiago Sávio
Das muitas lendas que circulam na família, uma delas é a de que tio Preto veio ao mundo para cuidar do próximo. E existem provas muito excelentes a seu favor: tio Preto, de tempos em tempos, resolve ter outro filho.
Primeiro veio Emiliano. Depois, Rafael. E agora, em sua nova jornada, ele vai levar consigo Thiago Sávio.
Thiago Sávio. Loiro, bonito, um pouco baixinho e sensual. 28 ou 29 anos muito bem escondidos pelo semblante de 18. À primeira vista, um genro perfeito para qualquer mãe e um marido perfeito pra qualquer mulher. É educado, parece caseiro e - ninguém é de ferro! - gosta de uma cervejinha.
Thiago Sávio veio a tio Preto de forma muito similar à de Emiliano. Emiliano apenas estudava com o primogênito, Caio. Mesma sala. Apenas isso. Com o passar de alguns meses, reconheceu nas "asas" de tio Preto um belo recanto para sossegar das dificuldades da vida e crescer em tempo e em paz.
Thiago Sávio apenas fazia natação com o caçula, Breno. Mesma turma. Foi chegando tímido, foi tornando-se amigo, conquistando corações e dividindo as dúvidas com aqueles que, talvez por ordem do destino, viriam a ser sua nova família.
Thiago Sávio deixa em Belo Horizonte a família que tanto ama, alguns prováveis corações partidos e sua moto. Leva consigo a Primeira Eucaristia (conquistada recentemente), a sua fé, a paixão de uma dona de quiosque que o aguarda na praia de Porto Seguro e uma câmera fotográfica.
Thiago Sávio quer ser fotógrafo. Quer registrar a beleza da vida através de uma lente.
Tio Preto usa óculos.
Pai e "filho", talvez.
Karinão
Estava chateado, pra baixo, inseguro e na pior quando, após o almoço, resolveu subir a ladeira em busca de refrigerante. Entrou, pegou uma Coca-Cola e foi para o caixa. E eis que, enquanto passava o cartão na máquina, levou uma cutucada no ombro.
Uma velha conhecida toda sorridente. Céus! Não faltava mais nada.
- Você sumiu demais! Me dá um abraço aqui, gato!
E tudo mudou.
Nem bomba atômica seria capaz de fazer tanto efeito. Nem a picada de uma aranha radioativa, nem radiação gama e nem cinto de utilidades.
“Gato”, pensou. “Ela me chamou de gato.” “Eu sou gato?” “Eu sou gato!”
“EU SOU GATO!”
Voltou do abraço com um sorriso canalha, de galã de rock. Ouriçou as sobrancelhas, inchou o peito, ergueu o pescoço, fez cara de mau.
“EU SOU GATO! PUTA QUE PARIU.”
E desceu junto com a amiga os 500 metros de ladeira. Encarava imponente no olho de todos que passavam ao seu redor. Mulheres, homens, qualquer um. Estava do lado de uma mulher que o achava gato (ou, pelo menos, era nisso que queria acreditar). Ninguém mais nas redondezas podia dar conta do seu incrível poder de sedução.
“EU SOU GATO!” “EU SOU GA-TO!”
Chegaram na porta da empresa e se despediram. Morreu de vontade de dizer “Obrigado por me salvar” e cobrir suas mãos de beijos, mas contentou-se em dar o melhor abraço possível. Além do mais, o abraço de um gato já é incrível por si só.
Ficou de frente para as duas portas de vidro da entrada. Nelas, ele enxergou seus cabelos enormes e desengonçados, sua vistosa camisa verde-musgo, suas calças com um rasgo gigante no joelho direito e sua Coca-Cola. Um homem feito (e com feições até bonitas se olhar com mais jeito). Um verdadeiro gato!
Respirou fundo e entrou como se estivesse indo dar um show.
Ele não vai procurá-la amanhã novamente. Não se apaixonou perdidamente por ela. Muito menos passou a tarde inteira revivendo aqueles atraentes olhos verdes o chamando de gato.
Não queria um outro amor. Só queria acreditar.
Ele só precisava de um “sim”.
Detalhes tão pequenos de nós dois
Estava aqui assistindo novela e comentando sobre o Caio Castro. Aí me lembrei de você. Curioso, nunca tinha me lembrado de você através do Caio Castro. Talvez não faça sentido pra mais ninguém o motivo de eu ter me lembrado de você falando do Caio Castro. Mas tem um sentido enorme. Um sentido só nosso. Tudo bem, prometi não me enganar mais: um motivo só meu.
O tempo. Eu não sei qual é o ponto em que o tempo ajuda nessas coisas de saudade e arrependimento. Porque, no começo da falta, eu me lembrava de você através de fatos diretamente ligados. Rápido e preciso, como o pensamento. Se eu visse ou ouvisse “yakissoba” era batata! Você na cabeça. Se eu visse ou ouvisse Papai Noel, batata de novo. Se eu passasse numa loja e visse uma camisa feminina e tivesse vontade de experimentar, batata. Nintendo 64, Mario Kart, The Doors, bandas de rock progressivo, Snoopy, Exaltasamba, Bukowski, quarto bagunçado, Fresno, Tavares, Balaio de Gato, ovelhas, Lolla, Lollapalooza, São Paulo, amendoim, garçonete, “Ô, glórias!”, Coldplay, chuva, Reveillon, guarda-chuva, Peter Gabriel e por aí vai. Isso num loop quase eterno, 24 horas por dia. Até que chega aquele estado bom, em que se acha que passou. Que virou passado.
Aí entra o tempo.
Tudo que me faz lembrar você se aglutinou em subcamadas no pensamento.
“Thiaguinho lança música nova.” Que legal, Thiaguinho é muito bom! Gosto do Thiaguinho! Mas preferia quando ele era do Exaltasamba. Ai, meu Deus. Exaltasamba.
“Pablo Miyazawa dá notícias da E3.” Poxa vida, que barato! Adorava as coberturas dele quando mais novo. Eu ficava sabendo sobre os novos Pokémon, sobre os novos videogames. Eu sempre quis ter um videogame e mamãe nunca me deu. Até que eu ganhei um Nintendo 64 de... Você. Céus.
“The Vaccines vai fazer um show em São Paulo.” Tomara Deus que eles venham aqui pra BH logo! Ou, quem sabe, em um festival! Tem o SWU no fim do ano, o Terra em seguida. E tem o Lollapalooza ano que vem. Lollapalooza. Ah, bosta.
“Elefante morre de fome.” Coitado, mas nem um ser humano pra arrumar amendoim pra ele? Amendoim. Merda.
Com o Caio Castro foi assim. Mas não vem ao caso detalhar o processo.
Subcamadas. Um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. Difícil é acordar.
Fico pensando no que sobrou de mim dentro de você. Será que já está no nível de subcamadas? Será que se você escutar "Sentado à Beira do Caminho” com o Erasmo você se lembraria que ela foi regravada pela Fresno na época do Tavares e se lembraria de mim?
Ou será que não sobrou nada? Nada de bom. Só nada.
Será que o tempo foi mais gentil com você?
Por aqui, outra crise de saudade. Mas vai passar. Vai passar.
Aí, não disse? “Lugar ao Sol”, Charlie Brown Jr. Isso é um sinal, com certeza! Esperança! Obrigado, iPod! Engraçado, por que o Chorão deu esse nome pra banda? Será que ele tirou das historinhas do... Ah. Saco.
Sophia
Luiza é estagiária da Emater. Trabalha no setor de Recursos Humanos e cursa design gráfico. Pois é, não me perguntem por quê.
Luiza tem os olhos castanhos e o corpo bem esguio. Pele branquinha, cabelos também castanhos cortados mais ou menos na altura dos ombros, cheio de ondas que ela adora jogar pra lá e pra cá. Não tem nenhuma tatuagem à mostra e usa um All Star xadrez. E tem os óculos, também. Óculos elegantes e de armações grossas e negras.
Luiza fuma Marlboro e tem o nariz todo vermelhinho. E tem dois piercings, um em cada lado do nariz. Não tem nenhum anel em nenhum dos dedos da mão e, pelo que me lembro, não usa nenhum esmalte também. Não tem muito peito, mas o que tem combina perfeitamente com a sua silhueta. A boca é bem rosada e não precisa de nenhum batom pra ser assim. É rosada, simplesmente. Rosada e pequena, com os lábios afinados na ponta, engrossando progressivamente num beicinho bonito por demais.
Luiza parece ser desligada todo o tempo. Consegue manter os olhos atentos àquilo que devem estar e, ao mesmo tempo, parece que ela não está ali. É intrigantemente distante o seu olhar. Para onde estão olhando? Para ali? Não... Talvez pra lá. Nunca se sabe. Mistério.
Luiza não dá bola pra ninguém. Pra ninguém. Nada de olhares, nada de sorrisinhos. Nada de nada.
Luiza é estabanada. Tropeça em tudo que está imóvel.
Luiza tem a voz doce e sutilmente grave. Conversa sem nenhuma timidez, mas também não é de conversar muito. Agradece sempre que precisa agradecer. E, junto com o “obrigado!”, abre um sorriso iluminador. Ah, sim! E sempre abre a porta. Sempre. Por isso, é sempre a última a entrar num ambiente.
Luiza tem uma pinta. Uma pinta preta. Uma pinta preta localizada bem ali, um pouco abaixo da bochecha esquerda.
Luiza tem uma pinta!
Ah! Luiza, Luiza...
Meu coração gelado só queria te agradecer.
eu não sou da sua rua
Eu sempre fui assim. Antes mesmo de saborear um prato, já estou pensando na sobremesa.
Decidi qual seria minha segunda tatuagem na noite que antecedeu a primeira. Queria porque queria duas tatuagens ao invés de uma só. Porque sou exagerado. Uma contradição, porque minha primeira tatuagem quer dizer “menos é sempre mais”. Comecei a pensar em todos os versos de todas as músicas que já ouvi na vida em busca de uma que me fizesse um sentido enorme. Depois de minutos e minutos pensando, recorri a Arnaldo Antunes. E, claro, achei. O cara é um gênio.
“Eu não sou da sua rua.” Escrita com letra de máquina de escrever no meio do braço esquerdo.
Uma pessoa entendeu.
Mas o que quer dizer “Eu não sou da sua rua”?
Fui criado no interior, graças a Deus.Fui criado nas calçadas da minha rua com uma turma gigante de meninos. Todos de pés no chão e solas de aço. Menos eu, porque mamãe sempre me fazia brincar de chinelo, zelosa que só. No interior, a palavra “rua” tem um sentido amplo,muito amplo. No interior, “rua” é aconchego, é abrigo, é amizade, é união, é identificação. No interior, “rua” é casa. As casas do interior não começam do muro pra dentro, começam da rua pra dentro. Eu saí de Curvelo aos 19 e, oito anos depois, sou capaz de dizer o nome de todos os meus vizinhos. Porque eles ainda são os mesmos. Alguns se mudaram, claro, mas tem muita gente por lá. Se eu sentar no passeio da minha casa por 20 minutos, sou cumprimentado por todos pelo nome, seguido de “como vai a vida lá em BH?”. Em oito anos de Belo Horizonte, não sei o nome nem de cinco vizinhos. Quanto mais o interior de suas casas.
Mas o que quer dizer “Eu não sou da sua rua”?
Bom, eu saí de lá. E deixei o cabelo crescer, e comecei a usar roupas apertadas e brincos nas orelhas. Comecei afumar um pouco, também. E eu sei que cabelo grande e camisetas apertadas e brincos nas orelhas e cigarro de palha quer dizer um monte de coisa, dependendo do lugar onde você está. Posso ser um malandro, posso ser um vagabundo, posso ser um descompromissado. Eu posso ser gay.
Eu posso, mas não sou nenhuma das opções acima. Mas, infelizmente, por falta de tempo, não vou conseguir provar pra cada um o que sou de verdade. Eles não foram criados comigo, não são da minha rua. Não posso julgá-los. Eles podem pensar o que quiser de mim.
Num primeiro plano, portanto, “Eu não sou da sua rua” significa: “Não me julgue nem me rotule. Me conheça. Prazer,sou Rafael Soal. Talvez nunca sejamos amigos de infância, mas podemos ser amigos. Que tal?” Fim.
Mas aí pode surgir outra pergunta: “Então, qual é a sua rua?”
E eu digo: “A minha rua é a minha rua, assim como a sua rua é a sua rua.”
Eu, Diego e Eduardo fomos criados juntos. Na mesma rua. Amigos inseparáveis numa infância deliciosa. Se fomos criados na mesma rua, temos alguns preceitos em comum. Aprendemos juntos que não podemos tocar a campainha do vizinho e sair correndo. Isso é errado!Aprendemos que não podemos jogar bola na janela dos outros. Isso também é errado. Aprendemos a respeitar os mais velhos, pedir bênção mesmo depois de velhos, cumprimentar a todos com muita alegria e ser bom na escola, porque esse é o caminho para um futuro melhor.
Mas se fomos criados assim, tão juntos, somos os três iguais hoje em dia. Certo?
Eu, Rafael, saí de Curvelo aos 19 pra fazer faculdade de Publicidade. Não gostei. Fui trabalhar na Emater-MG mesmo contra a minha vontade. Namorei Analu, que me botou de novo na faculdade, só que de Jornalismo. Me formei. Trabalhei na Rádio por mais de seis anos e,agora, estou podendo escrever textos por lá, assim como minha faculdade pediu que eu fizesse. Sou feliz. Claro que não em todos os setores (o amoroso é um desastre total), mas sou feliz. Sou tímido, sou vergonhoso, tenho o cabelo grande e uso roupas apertadas. E acredito ter comigo todos os preceitos que aprendi com Diego e Eduardo. Ou, pelo menos, tento usá-los da melhor forma possível. Fim.
Diego foi o melhor amigo de infância que eu pude ter. Vivíamos um dentro da casa do outro e nos divertíamos muito. Pê Tê Autas, Rouba Bandeira, Esconde-Esconde, velotrol, carrinho de Rolimã... Tudo que uma criança pode sonhar. Diego nasceu pouco mais de um mês antes de mim. Na mesma rua. Então é identificação demais! Diego continuou em Curvelo, formou-se em Pedagogia. Não gostou, tinha sonhos maiores. Hoje está estudando Medicina.Com essa fabulosa carreira – que é quase como uma missão – é lógico que Diego carrega os mesmos preceitos de infância que eu. Ele era tímido, também. Mas,pelo que vejo no Facebook, hoje ele ta danado de esperto! Nos distanciamos, tem anos e anos e anos que não nos falamos. Mas tenho certeza que, quando nos encontrarmos, será como o dia anterior do último “Até amanhã, meu amigo!”
Eduardo. Ou Eduardo Canibal para os íntimos de infância. Uma força da natureza. Só quem conheceu Eduardo sabe o que é Eduardo. O equilíbrio da balança de uma turma repleta de anjos. O mais encapetado, o mais radiante, o mais espoleta. Ouso dizer “o mais feliz”. Fazia o que dava na telha. O corpo parecia o de um viking: repleto de cicatrizes,lembretes de uma vida que não sabia o que era medo. Eduardo cortou um caju ao meio, fez um desenho na polpa, e colou na sua pele, embaixo de um sol escaldante. Uma tatuagem orgânica. A primeira tatuagem que vi na minha vida. Os primeiros palavrões que ouvi na vida saíram da boca dele. Eu não entendia nadado que ele falava, mamãe dizia que era recado. Mas ele falava com uma boca tão boa... Era libertador ouvir ele xingar. Como pode isso ser pecado?
Não tenho o que dizer sobre o que Eduardo fez. Desculpem-me todos que chegaram até aqui. O que faz uma força da natureza? Desaparece. Simples assim. E volta quando quer, como ele sempre fez.Depois que saí de Curvelo, vi Eduardo apenas duas vezes. O que eu posso dizer?Ele tinha um bom coração. Um coração lindo e urgente.
Acontece que, quando entrei no ônibus para Curvelo, na quarta-feira passada, recebi uma mensagem do Diego. Uma mensagem melancólica e saudosa. Eduardo havia morrido naquela madrugada. Ele sempre viveu rápido demais.
Eu fiquei muito triste. Já mamãe,chorou por Eduardo. A minha mãe chorou por Eduardo. Entendem o significado de “rua”?
Três garotos criados juntos. Um é jornalista. Outro será médico. O terceiro viveu pelos três e morreu.
Três garotos. Uma rua. Três destinos.E uma saudade enorme da nossa amizade.
Cada um ladrilha a sua própria "rua".
Não vou julgar Eduardo jamais, mesmo ele sendo da minha rua.
Esse texto é pra ele. E a minha segunda tatuagem, também.
A gente (ainda) se vê, meu amigo.
Os espólios de tio Preto, parte 1 - Jorge Clone
Começou com ele. O caçula. O último componente a integrar a família. É muito difícil levar um cãozinho numa mala, ainda mais se for pra bem longe. Na falta de possibilidades (e na vontade de ele, de certa forma, continuar na família), entrou no carro para um derradeiro teste: Curvelo.
Jorge chegou irreconhecível. Nada de correria, nada de travessuras. Apenas entrou e observou. Cauã Raimundo, o anfitrião da casa, comportou-se como um gentleman. Cheirou, cheirou, cheirou de novo e o deixou ficar.
Os dois se deram muito bem. Muito mais do que qualquer expectativa imaginada. Dividiram água, comida, espaço e carinho. Tudo da melhor maneira possível. Apesar de raças tão díspares, talvez tornem-se grandes irmãos.
Jorge descobriu ainda outro bicho curioso, que vive a vagar sonolento pelo quintal: Slow, o jabuti. Estranhou como se fosse algo de outro planeta mas, aos poucos, começou a entender. O mundo era muito mais vasto que aquela casa da capital. Agora ele vai conviver com flores, rosas, capins, buganvilas, trevos de quatro folhas, passarinhos, beija-flores, cachorros e jabutis.
Jorge adotou o banco da varanda como seu lugar predileto. Por várias vezes nas últimas 48 horas, espalhou-se feito um tapete, mirou o horizonte e ficou a pensar na vida.
Jorge perdeu muita coisa. Mas ganhou muita coisa, também. Porque a vida é assim.
Na partida, últimos afagos. A distância vai ser implacável, mas o amor vai permanecer.
Porque, no final, o amor sempre permanece.
Das seis vidas destinadas ao recomeço, a de Jorge foi apenas a primeira.
Restam cinco.
Amor que fica
Duca estava irredutível. Depois de meses enclausurado por conta de uma desilusão amorosa e um saldo bancário negativo graças aos vidros de uísque vazios pelos cantos da casa, ele queria fazer alguém feliz de novo. Mas não era pra daqui um mês. Era pra ontem, pra já!
Tomou banho, vestiu seu melhor terno e foi pra zona da cidade. Seu novo amor e mãe dos futuros filhos sairia dali e hoje. Percorreu os três andares da casa e vasculhou todos os quartos munido apenas de três perguntas:
"Qual a sua graça?"
"É comprometida lá fora?"
"Tá procurando um amor?"
Portas e portas na cara depois, deu de cara com uma mulher de calcinha - e apenas calcinha - dentro de um quarto roxo. Morena, corpo esguio, tatuagem na coxa e nas costas. Cabelo anelado. Pinta no rosto. Batata!
- Qual a sua graça?
- Como é? - perguntou a mulher erguendo sorrateiramente a cabeça. Meu filho, aqui não é lugar dessas perguntas. São 25 reais, 15 minutos...
- A senhorita não entendeu. Eu quero saber o seu nome, mesmo.
- ...
- Por favor. É importante.
- Cínthia.
- Cínthia, você é comprometida lá fora?
A morena se exaltou:- Escuta aqui, deixa de graça ou chamo alguém pra te dar um cacete!
- Não vamos fazer furdúncio! Eu tenho três perguntas, já fiz uma. Faltam duas. Dependendo das respostas, nem entro no teu quarto.
- Dai-me paciência... Não sou. Acha mesmo que eu seria levando essa vida?
- A última. Tá procurando um amor?
- O quê?
- Vou ser direto. Se estiver caçando um amor, pronto. Aqui estou. Levanta e vamos embora!
- É louco? Doido varrido? Moço, deixa eu te dizer... Amor não se faz, moço. Você não vai conseguir nada agindo assim. Eu li num livro esses dias.
- Posso tentar?- 25 reais, 15 minutos...
Entrou sem dizer nada e o que se ouviu nos 15 minutos seguintes matou de inveja todas as mulheres do recinto. Abriu a porta. Ajeitou o paletó no corpo, pertou o nó da gravata. Seguiu em frente.
- Ei, moço! Você volta amanhã?
Sem mover a cabeça tampouco diminuir a velocidade do passo, gritou:
- O que aconteceu com sua conversa letrada de que amor não se caça?
Ela sorriu como criança.
Casaram-se três meses depois. São muito mais felizes do que muita gente que esperou o amor acontecer.
E a primeira filha herdou os cabelos, a pinta no rosto e o nome da mãe: Daiane.
Abstinência
Era o ducentésimo quadragésimo sexto dia.
- Vontade de fumar.
- Eu também.
- Quanto tempo?
- Uns cem dias, eu acho. Você?
- Duzentos e quarenta e seis.
- Meu Deus! Que glória!
- Pois é.
- E ainda dá vontade?
- Sempre dá vontade.
- Eu posso dizer que tou no cem e tou aqui, morrendo de vontade.
- Tem hora que dá calafrio.
- Calafrio no dia duzentos e quarenta e seis? Obrigada por me animar.
- Calafrio e coisas que cê nem imagina.
- Acho que vou desistir.
- Sério?
- Sério. A melhor forma de fugir de uma tentação é entregar-se a ela.
- Bonito isso.
- É, li um dia desses. Vamos?
- Vamos o quê?
- O quê, meu Deus! Fumar!
- Cê tá me chamando pra fumar.
- Tou.
- Cê tá me chamando mesmo pra fumar?
- Tou.
- Isso não se faz, deixa eu te dizer. Cê tá me tentando.
- Tou nada. Eu tenho um cigarro aqui, mas não tenho isqueiro.
- Eu tenho isqueiro!
- Funciona?
- Funciona!
- Muito fogo?
- Tem duzentos e quarenta e seis dias que não uso. Tá lindo de bom!
- Eu fumo metade do cigarro. Você fuma a outra. E ficamos felizes juntos.
- Tá bom! Tá bom!
- Tá bom?
- Tá bom!
- Cadê o isqueiro?
- Pronto. Aceso. Olha o tamanho da chama!
- Olha o tamanho do meu cigarro! A abstinência não faz ele ficar maior?
- Se faz!
- Então me diz.
- Ai meu Deus! Diz o quê?
- Diz que você quer fumar o meu cigarro.
- Pra quê?
- Você diz e fuma meu cigarro. Você não diz e não fuma meu cigarro.
- Caralho.
- Ok, tou guardando na bolsa.
- EU QUERO! Eu quero muito! Me deixa fumar o seu cigarro com meu isqueiro!
- Ok. Mas outra hora.
- ...
- É. Passou a vontade.
- ...
- Um amigo meu sempre me diz que conversar demais sobre um vício te faz perder a vontade.
- ...
- Perdi a vontade. Tudo bem pra você?
- ...
- Nos vemos pelo corredor, fofo!
Era o ducentésimo quadragésimo sexto dia.
E contando.
Sobre homens. Ou nem tanto.
Fim de expediente público. Aquela coisa.
Três homens em volta de uma mesa. Um no computador, outro em pé, outro sentado no banquinho velho de madeira.
- Como as coisas aqui estão melhorando, hein? Cada mulher mais bonita que a outra!
- Verdade. Aquela do último andar, reparou? Que bunda!
- Não. Nem tanto. Prefiro aquela mais velha com os peitos fartos. Quando ela usa decote, então...
- Aqui também tem umas bárbaras! Umas três de tirar o chapéu e tudo mais que tiver!
- Mas vamos focar em peitos. Peitos, peitos, peitos...
- Todas boas, meu Deus!
Dez minutos falando de mulher. Incansáveis.
Até que aquele, o mais sóbrio dos três, para por um instante. Olha pro teto e suspira fundo.
- Mas sabem de uma coisa? Mulher boa, boa mesmo, é aquela que gosta da gente.
Silêncio.
O mais sóbrio abre a janela do Gmail e escreve: "Meu bem, me espera que já tou chegando. Beijos."
O que estava em pé, no caminho pra casa, passa numa floricultura e numa loja e chega até a esposa com buquê e uma garrafa de vinho.
O terceiro se arrependeu.
O Manual do Técnico de Segurança do Trabalho
a saudade voltou
de novo
com jeito que vai doer bem mais
que da primeira vez
o segundo adeus
dói mais que o primeiro?
não deveria
estou com o manual nas mãos
vai doer aqui e aqui
por tantos dias, por tanto tempo
mas vai passar
quem não se acostuma com a ausência?
se o que mais a gente faz
quando cresce
é acostumar com a ausência
em 48h vai doer tudo de novo
talvez até mais
talvez até pior
e talvez por isso essas folhas brancas
no final desse manual
a saudade, assim como a vida
é sempre nova
todo dia uma saudade nova
das mesmas velhas coisas vividas
a saudade é uma construção
e hoje resolvi te entender
a gente construiu nosso primeiro andar
se já doeu uma vez
interromper essa construção
pra quê doer de novo
lá no oitavo andar?
quem nessa vida precisa
de mais do que um andar
pra sobreviver.
edifício.
A cartilha infalível do Zezé
Essa semana o pai lhe fez muita falta e ele chorou duas vezes por isso. Afinal, seu pai arrebatou em tempos de Jovem Guarda e rock brasileiro uma mulher muito especial desse mundo: a sua mãe. Se o seu pai conseguiu arrebatar a sua mãe, por Deus, ele sabia todos os camihos possíveis entre a conquista e o amor.
Mas os dois nunca conversaram um com o outro sobre como conquistar uma garota. Nunca. "Meu filho, você vai fazer assim, como o papai fez...". Nunca houve essa conversa. Os dois viveram na mesma casa por 19 anos permeado por olhares carinhosos e vontades mudas de dizer "Eu te amo!" um para o outro. Mas o pai lhe era um herói. O seu pai reunia num homem só todos os atributos necessários para se ter a mulher que ama. Sempre foi assim.
Seu pai tinha cabelos longos na juventude. Longos e lisos, batendo no ombro. Usava calça boca-de-sino. Gostava do rock brega. Era esbelto, muito esbelto. Tinha o sorriso bonito (e todos diziam que ele tinha o sorriso do pai e isso era o seu maior orgulho). Sabia falar com as garotas. Conquistava as garotas. E era um pé-de-valsa. Meu Deus, como dançava! Cresceu vendo o seu pai não conseguindo tempo para sentar nas festas, tamanha quantidade de senhoras o tirando para dançar.
Um super-herói. O seu pai não era desse mundo. Existem super-heróis no mundo real? Não.
E lhe doeu todos os dias dessa semana o fato de seu pai não ter lhe ensinado como ativar todos esses super-poderes. Ele tinha o DNA do seu pai, todos esses super-poderes estavam ali, guardados. Mas ele não sabia o código para extravasá-los. Mas ele teve que agir, sem super-poderes ou não. E qualquer pessoa desse mundo, se ouvisse tudo que ele tentou fazer, não teria outra palavra pra definir senão "desastroso".
Foi quando que, na aurora do segundo encontro, ele tomou a decisão final: "Vou tentar ser hoje tudo o que eu pude ver o meu pai ser!" Ele tinha os cabelos longos como o pai. Não eram lisos, mas eram longos. Ele tinha uma calça boca-de-sino como o pai. Não era masculina, mas era uma boca-de-sino. E todo o resto seria, infelizmente, por 'feeling'. Lembrou de tudo o que era capaz da sua infância e do seu pai e da sua mãe e das senhoras que o tiravam pra dançar e saiu.
"Eu preciso tentar ser como meu pai."
Pediu à garota para pegá-la em casa. Tentou ser gentil ao máximo. Tentou conversar. Cometeu gafes extraordinárias, mas tentou conversar. Quase a tirou pra dançar quando o cantor de FM começou a tocar aquela música, mas ele não sabia dançar e estava chovendo e ninguém estava dançando no bar. Pagou a conta. Sim, ele pagou a conta! "Essa é pra você, pai!", disse ao colocar o cartão na maquininha. Deu as mãos. Beijou. (Ele nunca tinha perguntado pra mãe como erao beijo do pai. Aliás, algum filho pergunta?). Não a convidou pra dormir na casa dele, porque isso não está certo. Seu pai, com certeza, não levou a sua mãe pra dormir na sua casa. Claro que não, isso não está certo. Não assim e não agora. De jeito nenhum.
E acabou.
Chegou em casa e quis telefonar: "Alô! Pai? Pai, o senhor me fez muita falta essa semana mas, olha, eu tente fazer tudo o que o senhor me ensinou, pai!" Mas era tarde, seu pai com certeza estava deitado na cama ao lado da mulher que ficou ao lado dele por ele ser o que é.
E na cabeceira da cama do seu quarto ainda repousa em silêncio a velha cartilha invisível que seu pai lhe deu. Datada, empoeirada, amarelada. Escrita há milênios por antepassados que, assim como seu pai, não eram desse mundo de smatphones, Facebooks e etc. Era sua maior herança. Uma herança difícil e pesada. O mundo lhe dizia a todo momento que segui-la traria má sorte. "Mas se deu certo com meu pai, por que temer? É o meu pai!"
'Cartilha da Ordem dos Cavalheiros, Mandamento Único: Acima de tudo, seja um cavalheiro.'
Sobre morar junto
porque eu sei que um dia você vai trocar de roupa na minha frente e vai colocar aquela sua roupa mais bonita pra sair com mais um daqueles caras que não valem nada e só quer passar o tempo com você. e você vai virar pra mim e perguntar "e aí? como estou?" e eu vou mentir. vou dizer que está bonita quando na verdade está deslumbrante. vou dizer que você vai deixar o cara babando quando na verdade quem está babando sou eu. e vou dizer que o cara da vez tem muita sorte e tem mesmo porque eu não vou deixar transparecer mas eu vou estar morrendo de ciúme. e vou esconder a verdadeira frase que eu queria dizer que era "você está deslumbrante mas está tudo errado porque o cara com quem você devia estar saindo sou eu". mas eu não vou dizer. vou torcer pra você não se machucar de novo porque antes de te querer eu gosto muito mais de você do que gosto de nós dois. mas caso você se machuque eu vou estar ali do seu lado como um sentinela que nunca dorme pra curar suas feridas. até chegar o dia que quem sabe você consiga enfiar de uma vez por todas nessa sua cabeça dura que o homem certo pra você sou eu.
Sou/Nós
Omissão.
Se pedissem a ele para definir em uma palavra o relacionamento dos dois, seria essa: omissão.
Afinal de contas, como explicar as dezenas de tentativas abortadas de escrever pra ela? Dezenas. Algumas foram feitas com caneta, como nos áureos tempos. Seriam enviadas por Correio e tudo. Mas nunca chegaram nem na metade. Duas chegaram a existir de fato. Mais de duas páginas. Ao fim, ele olhou em suspiro: "Meu Deus, que idiotice..." Lixo.
Lixo lixo lixo. O fatídico destino de todos os seus tolos sentimentos.
É que ela fora o amor de sua vida em uma época em que suas crenças e seus valores jamais o permitiriam se declarar. Céus, isso estava sumariamente proibido. Passou meses e meses calado, mas sempre por perto. Sempre.
E aí a vida dá uma volta e outra volta e eles acabam marcando um encontro dois ou três anos depois de tudo. Nenhum de ambos é mais o mesmo. Ele já traz marcas no rosto, as olheiras herdadas pela mãe estão maiores. Os cabelos dela estão tão grandes como nunca estiveram. Ela viu o mundo, ele mergulhou no próprio. E por aí vai.
Falaram majoritariamente de amor. Amor. Palavra desconhecida pra ele e descoberta por ela. Contou que encontrou o homem da sua vida do outro lado do oceano. Mas isso não quer dizer que eles vão viver o resto da vida juntos. Ela apenas o encontrou, mas não manda na vida e nem no tempo. Mas disse que sentia paz ao seu lado. Sentia vontade de ficar.
Ele, sempre calado, falou do que ele considera, aos 27 anos, ser o seu grande amor. Contou uma história enorme, conhecida em sua totalidade por quase todos os que o cercam. Mas não convenceu. Suas palavras não condiziam com suas expressões. Carne e verbo não batiam. Ele demonstrava dúvida, apesar de tudo e de tanto tempo. O diagnóstico dela: "Quando estiver diante do seu grande amor, você vai apenas saber. E vai querer ficar."
Cervejas caras depois, ela saiu por instantes. Instintivamente, ele pegou o sachê de catchup, abriu entre os dentes e pintou em vermelho-sangue as batatas fritas. Feito. Seu coração foi colocado à mesa.
E aí o final. Ela mencionou por segundos o passado. Aquele que ele jogou no lixo por mais de dez vezes. Seria a hora? Uma pena: a cerveja não venceu o medo em tempo. Teve de fazer o que fazia de melhor.
Olhou para o coração na mesa. Arrancou a batata frita central e o partiu ao meio. Coração na mesa, coração na boca. De todas as centenas de palavras escritas pra ela e nunca lidas por ela, escolheu dizer:
"Pois é."
"Pois é" é o nome de uma música do Los Hermanos. Escrita pelo Marcelo Camelo. Autor do primeiro e único disco que ele a deu de presente.
Onde tudo começou.
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Sobre burrice
notas escolares. eu não sei pra quê servem notas escolares. nem as boas nem as ruins. eu mesmo fui criado com a lógica de que se não tirasse 80% em todas as matérias eu estava errado. e eu também não ganharia aquele videogame no fim do ano. e todos iam rir de mim porque eu era burro. então o que eu fiz na minha vida escolar inteira foi tirar ótimas notas para os outros menos pra mim. tirando notas boas eu poderia ser "pop". não ser "pop" a ponto de beijar a menina mais legal do colégio ou a mais bonita ou a mais "pop". mas eu poderia ser "pop" a ponto de menina mais legal ou a mais bonita ou a mais "pop" me pedir cola na hora da prova e eu passar a resposta pra ela. e eu sempre fazia isso. sempre. aí quando dava o sinal ela me esperava na porta da sala e me dava um beijo no rosto e dizia "obrigado você é um doce!" e eu me sentia o garoto mais importante e mais foda do colégio inteiro. mais foda que o garotos mais "pop" do colégio inteiro. e eu começava a pensar que se eu estudasse mais eu ficaria ainda mais inteligente e na próxima prova e passaria mais cola pra garota mais legal ou mais bonita ou mais "pop" e ela me daria outro beijo e na outra prova outro e na prova valendo 25 outro. e se ela entrasse em recuperação talvez ela até namorasse comigo já que eu daria aulas particulares lá em casa com mamãe fazendo suco e bolo pra gene no intervalo. então eu me tornaria no ano seguinte o garoto mais "pop" do colégio tendo chegado a esse posto pela inteligência e não pela beleza. porque eu sempre tive orelhas muito grandes e não era bonito.
até que chegou o dia em que o garoto mais burro da minha sala ficou com a garota mais "pop" do colégio. e eu fiquei triste porque talvez elas não quisessem poesia ou essas coisas bonitas todas. talvez elas quisessem alguém burro. só burro. que não soubesse quem é Graciliano Ramos ou Pedro Bandeira. que não soubesse quem eram os "Karas" ou a Capitu. alguém que fosse apenas bom de beijo e eu acho que não precisa ser inteligente pra ser bom de beijo. talvez pra ser bom de beijo fosse preciso apenas prática. e eu não pratiquei porque perdi o meu tempo estudando os livros de história e literatura e biologia e física. eu desperdicei o meu tempo ficando inteligente quando na verdade eu deveria ter desperdiçado pra ficar burro.
porque se eu tivesse desperdiçado meu tempo pra ficar burro eu teria ficado muito bom com garotas e eu teria treinado mais beijo. eu teria ficado muito bom em beijar. eu seria burro mas eu saberia beijar. é uma troca muito da justa.
e se hoje eu fosse burro com certeza eu não ficaria tão sem graça e tão sem saber o que fazer na sua frente. mas eu resolvi estudar aí eu olho pra você e vejo a Capitu ou uma princesa ou a Anna Júlia ou a Bárbara ou qualquer outra grande musa e isso me deixa sem chão. porque quem escreveu essas musas nunca me ensinou como me portar como homem na frente delas. me ensinou apenas a me desesperar. e as pessoas burras não sabem nem o que são musas então não tem por que desesperar. o garoto da minha sala não sabia o que era "pop" e foi lá e beijou a menina mais "pop" do colégio. e não precisou passar nem a questão "C" da pergunta três da prova de Geometria pra isso. eu não sei onde ele está hoje. espero que ainda esteja burro porque eu o invejo por isso. ele te pediria em namoro fácil porque ele não sabe o que quer dizer "namoro". ele é burro.
eu queria muito ser burro.
e eu queria muito que você fosse da minha sala.
Deu "ocupado" de novo
Ontem foi dia de Celisa ir na Comunidade Reviver. E desde que o mundo é mundo ela leva um papelzinho meu repleto de coisas que quero falar com Deus. E desde que meu mundo mudou fui lá e coloquei de novo o seu nome.
Logo após tê-lo escrito, bateu arrependimento mórbido. Tanta coisa acontecendo em minha volta, tantos destinos prestes a uma irreversível mudança e eu ali, escrevendo pela 830º o seu nome no papelzinho pra falar com Deus. Então eu o rabisquei. Com bastante força.
Mas o resto da da frase já estava escrito. O que eu ia colocar no lugar? Qual nome eu poderia colocar no lugar do seu pra que aquela frase fizesse sentido? Não tem a porra de um nome pra eu colocar no lugar do seu.
E se Deus conseguir enxergar por trás de um rabisco? "Não adianta me enganar, Rafael. Eu sei tudo o que passa com você. Eu sou o seu Pai. Que Pai não sabe o que acontece com seu próprio filho? Escreve esse nome de novo. Sem culpa, dessa vez."
E eu reescrevi o seu nome. De novo. Logo atrás do rabisco de caneta. No lugar do arrependimento (curioso como seu nome sempre vem acompanhado desse sentimento), eu coloquei saudade. Porque essa foi, talvez, a última vez que Celisa levou meu papelzinho pra falar com Deus pra Reviver. Meu último papelzinho pra falar com Deus. Minha última ficha de telefone público. Precisava ter muito mais que arrependimento.
Daqui uns dias eu vou ter que aprender a falar com Deus sozinho. Sem cartas, sem artifícios de linguagem.
Deus vai ficar na minha lista de contatos. Bem ali, pertinho do seu nome, separados por poucos "Bês" e "Cês".
Espero que, pra ele, eu tenha coragem de ligar.
Sobre expectativas
espero que a nossa novela dure 175 páginas. no mínimo. porque eu sempre achei 175 um número muito bonito. ele é redondo, redondinho. nada falta e nada sobra. cento-e-setenta-e-cinco. é bom até de pronunciar. se a nossa novela durar 175 páginas, eu escrevo um livro com ela. porque eu sempre quis escrever um livro com 175 páginas. porque 175 é um número muito bonito. caso nossa novela dure... sei lá... 94 páginas ou 108 páginas (que é um número horrível) ou 117 páginas (gosto de 117, mas não tanto quanto gosto de 175), aí eu vou ter que me desesperar e sofrer em bares como um errante até quem sabe encontrar a minha redenção. isso tudo claro sem desobedecer as 175 páginas. o meu reencontro comigo mesmo ou o meu encontro com minha salvadora seria exatamente na página 175. de preferência na última linha porque eu gosto de deixar aquele suspense de "e agora o que vai acontecer com o personagem?" e tudo mais. espero não precisar de redenção é óbvio. espero que nós cheguemos juntos até a página 175. se a gente chegar na página 175 e ainda existir amor ou paixão ou esses nomes todos que as pessoas gostam de enquadrar a simplicidade da palavra "gostar" nós pularemos para a página 176. e eu não tenho nem nunca tive planos para a página 176 então no caso eu te pediria em casamento. e casamento é pra vida toda e eu não tenho vontade de escrever um livro do tamanho de uma Barsa. então eu não vou precisar escrever um livro sobre nós. se eu chegar até a página 175 e depois dela não haver mais nada eu não vou ficar radiante mas eu vou entender. afinal é a página 175. e 175 é um número muito bonito. se chegarmos até a página 175 meu amor eu terei o meu primeiro romance.
boa sorte pra nós dois.
Sobre falta e ausência
acabei de saber por Whatsapp que você está com meus amigos. os mesmos amigos que me chamaram na parte da tarde para estar exatamente no lugar em que você está. com eles. e eu claro não fui. geralmente eu nunca vou. hoje eu não fui por causa da chuva e - veja só que ironia - por sua causa. ontem eu lembrei muito de você porque resolvi comprar uma extensão para jogar Nintendo 64 com meu primo. a gente ia jogar Pokémon Stadium. na verdade tem mais um motivo mas não posso dizer porque envolve um amigo meu e eu não pedi a permissão dele pra contar. e eu não consegui jogar Pokémon Stadium. eu só queria dormir. ou dormir ou esperar uma mensagem que dissesse "oi lembrei de você hoje. só queria te lembrar que eu sou seu presente. boa noite." eu até esperei a mensagem mas ela não chegou. na verdade ela nunca chegou. então eu acordei oco por dentro e passei o dia inteiro sem sentir absolutamente nada. participei de uma reunião importante no serviço e - acredite! - eu falei feito pinto no lixo. eu falando igual pinto no lixo. é claro que eu estava oco por dentro. oco de medo oco de insegurança oco de timidez. e então eu falei. falei porque eu queria falar. eu precisava falar. na verdade eu queria falar outras coisas mas essa foi a única oportunidade do dia em que eu fui convidado a falar. e sabe o que significou eu falar hoje? "ei, eu existo!". o Wagner sempre me fala que quando a gente fala a gente passa a existir e define nosso lugar. e eu consegui definir o meu lugar. minha chefe olhou pra mim várias vezes então eu acho que consegui. pelo menos pra ela que me olhou várias vezes eu existi hoje. e depois da reunião os meninos disseram "vamos lá com a gente, vai ser legal!". e eu não fui. não fui por causa da chuva e por causa de você. porque eu estava sentindo a sua falta e eu não poderia ser uma boa companhia pra ninguém. eu estava oco. só que agora eu estou em casa e recebi um Whatsapp dizendo que você está no lugar onde eu deveria estar. e eu enfrentaria qualquer vendaval pra ir aí te ver. mas eu sei que não seria a mesma coisa. uma coisa é eu ir com os meninos pra beber cerveja e rir e de repente você chegar na porta do bar e aí sim eu começar a chorar. outra coisa é já chegar chorando. eu tentei enfrentar a chuva nos últimos dias sabe. eu não estava nem aí pra ela. só que hoje eu voltei a ter medo dela. meu cabelo ia encharcar todo eu ia virar uma samambaia. mas talvez você me convidasse pra ir até a sua casa pra enxugar meu cabelo e emprestar um guarda-chuva. ou talvez a gente fosse até um ponto de ônibus e nos encharcássemos juntos de água. ou talvez você me dissesse de novo que eu até fico bonito de cabelo molhado e em forma de samambaia. você me elogiava. tem tempo que eu não sei o que é isso. tem tempo que eu não sei o que é muita coisa. tem tempo que eu não sei quem é você. e talvez hoje não fosse o dia de relembrar. ainda não.
as coisas são como são.
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Avenida Augusto de Lima, 172. Domingo. 20h47.
"- eu te amo, sabia? ..... eu te amo! .... eu.te.amo! ...... fala que me ama? ............. fala que me ama! ... fala! ......... eu te amo, também. eu te amo muito! ........ na verdade, eu te amo muito mais que você me ama. ........ então tá."
E se o mundo for maior que minha gaiola?
não me dê trela
eu não sou pro teu bico
também sou passarinho
mas não sei voar.
porque
se acaso me deres trela
quererei ser pro teu bico
afinal, também sou passarinho
e posso até (te) cantar.
Sobre a paz
porque tudo começa e tem tudo pra ser um dia monótono como foram os outros 354. nada de novo, nada de interessante, nada que te prenda a atenção por mais de dois minutos - e olha que dois minutos é ser muito otimista. o mesmo motorista, o mesmo cobrador de ônibus. os mesmos flertes chamando no Whatsapp. a mesma mesa cor-de-madeira-surrada. os mesmos colegas de trabalho. as mesmas estagiárias. aquela mesma colega de trabalho que tá ali do seu lado tem quase um ano e que você não sabe muito a respeito apenas que é bonita e que hoje está usando um tomara-que-caia branco com uma pinta logo acima dele? mas o que é isso? quem é essa pinta? quem colocou essa pinta aqui? que dia essa pinta chegou pra trabalhar do meu lado? e aí você fica cinco minutos olhando aquela pinta que até o dia anterior nunca havia batido ponto naquela empresa. os cinco minutos viram dez que viram vinte que viram duas horas. e você passa todo o resto do dia olhando de rabo-de-olho aquela pinta em cima do peito. "meu Deus como eu passei a minha vida inteira sem saber você, pinta em cima do peito?", “que merda de vida eu vivia que não te procurei antes, pinta em cima do peito?”. e o corpo esquenta. você começa ri pra pinta em cima do peito. você acha graça do desespero das pessoas ao redor que reclamam da monotonia do dia. "monotonia? por Deus, onde vocês vivem? tem uma pinta em cima do peito bem do meu lado. monotonia?" e todo globo terrestre com tudo que tem dentro dele vira uma pinta em cima do peito. e a vida fica feliz como há muito não acontecia antes. e você vai passar o resto do que sobra do ano esperando ardentemente que ela volte no outro dia e no outro dia com uma blusa tomara-que-caia que mostre novamente aquela pinta em cima do peito.
aos olhos coube o difícil trabalho matemático de entender como um pontinho preto foi capaz de transformar toda a sua paleta de cores em rosa.
ao coração, eterno idiota, restou o suspiro: "aqui jaz a minha paz".
Sobre o não-pertencimento
"eu tenho pressa! tanta coisa me interessa! mas nada tanto assim..."
o não-pertencimento. a fina arte de saber - ou achar, porque uma garota me disse dia desses que a gente nunca sabe de nada - que nada em sua volta é seu.
vivi até os 19 anos em Curvelo, minha terra natal. isso aqui era meu. meu quarto, minha casa, minha rua, meus amigos, meu colégio, minha cidade. um pequeno e maravilhoso universo que guardava muito bem a minha alma. não havia nada que me faltasse aos 19. nenhuma cidade desconhecida, nenhuma praia, nenhum rosto novo. eu não precisava de nada. aí aos 19 eu fui morar com meu tio. como a família adora dizer, saí de uma barra-de-saia para entrar em outra. nada mudou tanto assim. tio Preto é meu tio e também meu padrinho. me trazia presentes fantásticos todo Natal. é irmão da minha mãe. de fato, saí de uma barra-de-saia para entrar em outra. e debaixo dessa nova barra-de-saia fiquei mais oito anos. não era meu quarto, não era minha casa, não era minha rua e nem era meu colégio. mas ainda sim era minha família. e passei oito anos num não-pertencimento velado. nada daquilo era meu, mas meus pais me ensinaram bons modos de uma forma assustadora. eu estava na "casa dos outros", deveria ter obediência e gratidão por todos que me acolheram. então todas as vezes que eu queria fazer algo que só eu queria (escutar música bem alto, na maioria das vezes), eu dizia que ainda não era a hora de fazer isso e que essa hora ia chegar um dia. e guardava aquilo em algum lugar do peito. com isso, acabei descobrindo que tenho um recipiente infinito dentro do peito. porque se eu pensei em ouvir música bem alto uma vez por dia em 8 anos, eu fiquei com essa vontade guardada 2.920 vezes - tirando os anos bissextos. sabe o que é reprimir uma vontade 2.920 vezes? não queira saber. e isso só porque estou falando de música alta. no mínimo eu reprimi cada vontade 2.920 vezes. enfim, um recipiente infinito. ou nem tanto. porque quando eu percebi que ele não ia aguentar tanta vontade reprimida eu passei a me fechar. "se eu sair e beber um pouco mais do que devia vou dar preocupação para o meu tio. e o recipiente infinito tá quase cheio, logo, eu não vou sair." é uma lógica. errada, mas uma lógica. aliás, todas as lógicas são erradas. não entrem nessa de lógica. e no decorrer de oito anos eu fechei muitas comportas do navio pra ele não afundar num mar profundo de desejos. e funcionou. mas toda ação tem uma reação, e ela vai chegar. não se enganem porque ela sempre vai chegar. e chegou pra mim.
quando meu tio Preto foi embora eu ganhei uma casa nova. não era nova porque ela sempre esteve lá, mas pra mim era nova. era minha! eu nunca tive uma casa só minha e ganhei uma, então ela era nova! uma sala ligada com a copa, dois quartos, uma cozinha, um banheiro e uma varanda onde eu sento pra ver a lua. enorme. enorme e minha. toda ação tem uma reação, certo? a primeira coisa que fiz na minha casa foi pregar o vinil 'Abbey Road' na porta do meu quarto. não era um quadro, era um vinil. eu peguei um vinil e colei na parede. a segunda coisa que fiz foi ouvir música bem alto. a primeira música que tocou na minha casa foi "À Janela", do Robertão. qualquer dia desses procurem a letra, talvez entendam o motivo. e depois do Robertão veio meu iPod inteirinho. eu passei dias e dias não fazendo absolutamente nada a não ser ouvir música bem alto. deixei de ver novela e ver qualquer outro programa de televisão porque eram 2.920 vezes de vontade acumulada de ouvir música. não dá tempo de ver novela. não dá tempo de fazer nada. e, aos poucos, todo o espaço da casa foi inundado pelas minhas vontades reprimidas. as paredes estão cheias de discos. tem um tiro-ao-alvo na porta do meu quarto. tem uma máquina de escrever no meio da sala. meu violão, meu baixo e minha guitarra enfim ocuparam o lugar que sempre mereceram dentro do meu quarto. os livros estão na estante. os DVDs estão na estante. 1/10 dos meus CDs estão na estante. até comprar um papai Noel eu comprei. bem bonitinho. fica em cima da máquina de escrever. era tanta vontade reprimida que em menos de um mês eu fiz uma casa inteira ficar do jeito que eu queria. e tem uma cama de casal. eu, que sempre dormi em cama de solteiro ao lado dos meus primos Breno e Caio, agora tinha uma cama de casal. toda pra mim. pra ficar fazendo estrelinha de tarde ou esticar todos os membros durante a noite. mas desde pequeno a gente sabe pra quê serve uma cama de casal. e não é pra fazer estrelinhas de tarde. é pra fazer sexo. e Erasmo Carlos diz que sexo é amor. aquela casa estava precisando de amor.
então as comportas do navio foram finalmente abertas.
passei a viver mais em 3 meses do que vivi de fato em 8 anos. claro que em 8 anos eu fiz minhas loucuras, então não me considere um anjo nem um exilado. considere apenas que deveria ter vivido mais. deixem que gostassem de mim, algo que eu não sei fazer muito bem. amizades novas e fantásticas se solidificaram em um tempo recorde. e essas amizades novas trouxeram amizades novas. até uma garota essas amizades novas trouxeram. poderia falar "até um amor essas novas amizades trouxeram", mas as pessoas tem um pouco de medo dessa palavra, então eu vou deixar apenas "até uma garota". amizades antigas começaram a amar amizades antigas. coisas impossíveis começaram a se materializar de forma assustadora. eu recebi amigos na minha casa. por Deus do céu, eu nunca recebi amigos em 8 anos na casa do tio Preto. eu saio mais a noite e chego tarde e não preciso fazer pouco barulho pra não acordar ninguém porque não tem ninguém pra acordar. eu passei a pagar contas e, consequentemente, passei a comprar menos discos e livros. eu me descobri um cara que gosta das coisas limpas e arrumadas, embora lavar banheiro seja o maior saco desse mundo. eu passei a lavar minhas próprias roupas. eu passei a me preocupar em ganhar mais dinheiro. eu fiquei oito anos sem me preocupar em ganhar mais dinheiro. dinheiro nunca me importou. eu passei a pensar no futuro. e, aos poucos, eu passei a cumprimentar algumas pessoas como minha avó cumprimentava as pessoas: "eu vou indo. eu vou indo..." em 3 meses eu passei a fazer parte de um grupo, com todas as dores e delícias que um grupo pode ter. eu tenho amigos de fé e irmão camaradas, e eles também me tem. na medida do possível, porque eu ainda gosto do silêncio que a música alta me proporciona numa noite de sexta-feira.
e onde está o não-pertencimento? em tudo. essa é a melhor resposta que posso dar por enquanto. perdoem-me por terem lido isso tudo e ver que isso tudo termina apenas nessa resposta: "em tudo." aliás, essa resposta é a prova concreta de um não-pertencimento.
em 2014 eu pretendo trabalhar na Rolling Stone. lá é o meu lugar. eu sei que é. ou eu acho que é, porque dia desses um garota me disse que eu não sei de nada. e se eu for pra lá e descobrir que lá não é o meu lugar? eu amaria escrever sobre música o dia todo! mas será que se a gente amar todo dia o amor não acaba? como uma pastilha de freio de carro. como dar murro em ponta-de-faca.
sempre passo o Natal na minha terra natal. sempre. Curvelo. estou aqui desde segunda. é a minha cidade, minha rua, minha casa, meu quarto. sim, o meu quarto. meus pais conservaram o meu quarto intacto desde a minha partida. tudo está exatamente como eu deixei aos 19 anos de idade. e aí eu sento na cama e olho para o meu quarto e não me reconheço. esse quarto não é meu. ou talvez eu não seja mais desse quarto. nem dessa casa. nem dessa rua. nem dessa cidade. mas eu também não sou da sua rua. não-pertencimento.
é perigoso abrir as comportas do navio. porque toda ação tem uma reação.
no mesmo programa de rádio que ontem tocou uma música do Robertão da década de 70 hoje tocou uma música de Natal do Calypso. a Joelma cantando com o bebezinho dela. tenho absoluta certeza que foi a música mais bonita que ela já cantou na vida. era o bebezinho dela cantando. tem muita lógica pra ela.
"eu olho para o meu antigo quarto. meu antigo quarto, de certa forma, era eu. eu não me reconheço no meu antigo quarto. logo, eu não sou mais quem eu era. então, quem sou..."
todas as lógicas são erradas. não entrem nessa de lógica.
jamais.
Sobre ser adolescente
você me contou que seu namorado toca baixo. que merda. porque de todos os instrumentos que existem o que eu mais queria tocar era o baixo. na verdade eu até tenho um. lindo. a coisa mais magnânima que eu tenho em casa. um Squier Fender Precision Bass. custou 800 reais no Mercado Livre e eu fui pessoalmente em São Paulo buscar porque o dono ficou com medo de colocar no ônibus. eu tenho um baixo mas não sei tocar. e você tem um namorado que sabe tocar baixo. então ele tá muito na minha frente na corrida-com-obstáculos pelo seu coração. se você disser que ele tem uma banda na próxima vez que a gente conversar aí eu juro que eu morro. porque aí ele tá galáxias de distância na minha frente. que merda. se ele tiver uma banda eu vou ter que aprender a tocar meu baixo muito bem e depois ainda vou ter que procurar o raio de uma banda pra tocar para aí sim você olhar pra mim. e isso daria muito muito trabalho. se você não tivesse um namorado que tocasse baixo eu poderia te chamar pra ir lá em casa. aí você ia entrar e dar de cara com meu baixo com meu violão e com minha guitarra e seus olhos iam saltar pelas órbitas e você ia me desejar ardentemente. aí você ia pedir "toca uma música no baixo pra mim?" e eu diria "eu até tocaria uma música no baixo pra você mas ele precisa de um amplificador pra funcionar e eu não tenho um amplificador." mas eu ia te dizer que quando a gente se casasse eu tocaria uma música no baile pra você. aí você ia me beijar e a gente começaria a namorar ali mesmo na sala da minha casa. e eu teria uns anos pra aprender uma música que você goste e tocar no dia do nosso casamento. mas é claro que só ia aprender a tocar uma música só porque eu prometi uma música só. aí um dia depois do nosso casamento você ia me pedir "November Rain" do Guns 'n' Roses e eu ia dizer na sua frente ali mesmo que eu não sei tocar baixo nem nunca soube mas aprendi a duras penas a tocar sua música preferida na noite do nosso casamento só pra te agradar. e no terceiro dia do nosso casamento nós não estaríamos mais casados. se eu fosse inteligente o suficiente eu tentaria te conquistar das formas que eu domino e que eu sei fazer. porque aí não teria nenhuma decepção no futuro. mas nenhuma delas inclui uma linha fantástica de baixo muito menos uma banda. mas eu tenho que me fazer de forte e de seguro e de adulto e de apto a tocar um baixo porque só assim você olharia pra mim. a verdade verdade mesmo é que se eu e meu coração fôssemos inteligentes daríamos mole juntos pra essa garota aqui que também dá mole pra nós dois. porque essa garota aqui gosta de mim exatamente do jeito que eu sou. e eu sou uma tragédia com o baixo. com essa garota aqui eu não precisaria me fazer de forte e de seguro e de adulto e de apto a tocar um baixo porque ela gosta dos meus outros atributos. o baixo não faria a menor diferença na vida dela. mas se eu der mole pra ela e a gente se casar eu nunca vou aprender a tocar baixo. aí é fácil demais. não tem corrida-com-obstáculos. não tem nem você. e eu gosto de você.
você é a única chance que eu tenho pra aprender a tocar o meu baixo.
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